
Curitiba e Ilhota - Psicólogos começaram a chegar ao município com o maior número de mortes provocadas pelas chuvas que atingiram o Vale do Itajaí, em Santa Catarina. Com 37 óbitos, Ilhota tem moradores que perderam parentes, amigos, animais e bens materiais. Muitos terão que reconstruir a vida a partir de agora. No momento, porém, precisam de muito ânimo e apoio para começar.
Pessoas deitadas e com o olhar perdido são um sinal de que a saúde mental pode não ir tão bem. É comum encontrar esse perfil em Ilhota, principalmente entre as vítimas do temporal que se abateu sobre o Morro do Baú, na zona rural do município. Dezenas de pessoas se voluntariaram para ouvir os desabafos dos desabrigados. "A gente não sabe se dá o ombro para eles chorarem ou se chora junto", conta a voluntária Isaura Ferretti. Conforme explica a psicóloga do município, Isabel Vieira, o momento atual é mesmo de ouvir, já que as vítimas da enchente sentem grande necessidade de contar o que presenciaram. "Não se tem muitas repostas ainda", afirma. "Eles indagam o que acontecerá a partir de agora, mas me parece que ninguém tem a resposta nesse momento."
Em um dos abrigos da cidade, o produtor rural Heitor Fucks não vê a hora de voltar para o Morro do Baú, onde criava animais e tinha plantação. A casa do agricultor continua de pé, e o que ele mais quer é poder voltar para lá. "Não posso ter o coração alegre sem estar no meu lugar", diz. Ao longo da vida, Fucks saiu apenas duas vezes da propriedade, para ver o irmão em Joinville. No abrigo, ele estranha até o gosto da água. "Levo uma vida muito diferente da que tinha antes, quando acordava às 4 horas e passava o dia na lavoura e vendo os meus netos", conta. Antônio Fischer é outro produtor rural que também não se acostumou com a vida longe do Morro do Baú. Depois que a casa dele foi destruída, passou dois dias com o filho em Blumenau. Não agüentou. "Me criei na roça, e fico doido na cidade. Não agüentei. No apartamento, eu não fico", desabafa.
A terapeuta e enfermeira Mirian Lago foi enviada de Florianópolis a Ilhota para avaliar o estado das vítimas. "É um trabalho de elaboração da perda de pessoas, do lugar, de bens materiais", explica. De acordo com ela, as referências perdidas são as mais diversas: é a criança que fica triste porque não pôde trazer o cachorro; o senhor que se preocupa com o porco que não está comendo ou com o cavalo de 15 anos que ficou sozinho. Mirian está procurando deixar sugestões para a administração do município, que terá de organizar um atendimento permanente às vítimas. De acordo com o psicólogo Tônio Luna, acompanhamentos psicológicos nesses casos podem levar de um a dois anos. "Em algumas situações, o transtorno só vai se manifestar quase um ano depois", diz.
Segundo a psicóloga Joyce Fischer, a perda de parentes, da casa e até mesmo da identidade é comum a todos os que sofreram com o desastre em Santa Catarina. No entanto, ela esclarece que cada pessoa reage de uma forma diferente nesses momentos de luto. "É importante respeitar a dor de cada um", afirma. "Dar espaço é o melhor antes de tudo. Quem vai mostrar o que precisa é a própria vítima." Para Joyce, não há uma fórmula de como ajudar essas pessoas. "Basta estar disposto a ouvir as necessidades delas", diz.



