Pelo menos uma vez na vida, todo mundo já assaltou a geladeira no meio da madrugada. Esporadicamente, não há nada de errado nisso. O problema surge quando o hábito de comer à noite se torna algo freqüente e exagerado. A chamada Síndrome do Comer Noturno (SCN) afeta cerca de 1,5% da população geral e 30% dos obesos.
De acordo com o médico psiquiatra, membro do Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, Alexandre Azevedo, o transtorno se caracteriza pelo consumo de mais de 50% da ingestão calórica diária após as 19 horas.
Em uma única noite, o paciente pode chegar a despertar até oito vezes e a ingerir uma quantidade calórica que varia de 3 mil a 10 mil calorias em menos de uma hora. Segundo a psiquiatra e coordenadora do Ambulatório de Transtornos Alimentares do Hospital Nossa Senhora da Luz, Christina de Almeida, alguns pacientes comem de forma tão descontrolada que chegam a passar mal. "A pessoa come qualquer coisa que tenha em casa", diz. De acordo com a médica, a ingestão é tão rápida que o cérebro não tem tempo de processar a sensação de saciedade, que em média leva 20 minutos para ser interpretada.
Da mesma maneira que os outros transtornos alimentares, a SCN é mais comum em mulheres. Na maior parte dos casos o paciente não admite o problema ou sente vergonha de seu comportamento. J.M.G sofre de compulsão alimentar noturna há cerca de 20 anos. Hoje, embora continue com o hábito de comer à noite, reconhece o problema e participa de reuniões no grupo dos Comedores Anônimos. "Sempre fiz dieta, já tomei remédios para emagrecer, nada resolveu. Durante o dia sempre comi pouco, achava que assim as pessoas iriam pensar ela é gorda, mas come pouco. Mas a noite já cheguei a levar comida para o lado da cama", conta. Há cinco meses, J.M.G, que pesava 90 quilos, passou por uma cirurgia de redução do estômago. Já perdeu 20 quilos, mas, mesmo com as restrições alimentares que o pós-operatório requer, continua se alimentando de madrugada. Além de comer, J.M.G também fuma compulsivamente durante a noite.
Segundo Christina, é comum que os pacientes comam pouco durante o dia, até porque muitos nem sentem fome devido à grande quantidade de alimentos ingeridos de madrugada. "É importante que o paciente tenha um acompanhamento multidisciplinar, já que por conta do sobrepeso muitos podem sofrer da chamada síndrome metabólica, que envolve diabetes, pressão alta, colesterol elevado", afirma. O tratamento é feito com base em terapia cognitiva comportamental, que visa a mudar os hábitos do paciente.
Para o presidente da Sociedade Paranaense de Psiquiatria, Osmar Ratzke, o apoio da família é fundamental. "Os familiares não devem criticar, mas compreender que a culpa pelo descontrole não é da pessoa. Ela está doente e precisa de ajuda", diz. (CV)
Serviço: Comedores Compulsivos Anônimos. As reuniões ocorrem na primeira sexta-feira de cada mês no Anfiteatro da Unidade de Saúde Ouvidor Pardinho, Rua 24 de maio, às 19 horas. Contato: 9679-5811



