
Dados do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) mostram que o ritmo do aumento da frota exige um planejamento adequado para evitar a estrangulação do trânsito em cidades de médio e grande porte. Entre 2003 e 2008, o Paraná teve aumento de 42% no total de veículos, valor um ponto porcentual abaixo da média nacional. Rondônia, Tocantins, Acre, Maranhão e Paraíba puxaram o crescimento, registrando aumento da frota superior a 60%. A motorização é consequência de pelo menos dois fatores: falta de qualidade do sistema de transporte coletivo e aumento do poder de consumo da população.
De acordo com a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), o número de veículos licenciados no Brasil subiu 108% em cinco anos. Saltou de 2,3 milhões, em 2003, para 4,8 milhões, em 2008. Somente até julho deste ano, 2,7 milhões de veículos foram licenciados. "Há uma tendência de popularização de todos os bens no sistema econômico. As geladeiras, por exemplo, já foram itens inacessíveis para a classe média. Com a produção em massa, os produtos tendem a ficar relativamente mais baratos", explica José Guilherme Vieira, doutor em Economia e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Além da facilidade de aquisição, o sistema de transporte coletivo deve oferecer benefícios aos usuários. "À medida que se tenha à disposição outras alternativas para deslocamento, é normal que se deixe de usar o carro", afirma o diretor do curso de Arquitetura e Urbanismo da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Carlos Hardt. Para chegar a esse patamar, é necessário construir modelo eficiente de transportes, evitando trajetos desnecessários de automóveis. "Grande parte dos condutores vai deixar o carro em casa se o transporte oferecer qualidade", opina. E a consequência da melhoria é um benefício geral: o fim ou a amenização dos congestionamentos.
E as questões culturais não atrapalhariam o uso do transporte público. "A cultura atual da não utilização é o resultado da falta de qualidade", diz Hardt. O coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Positivo, Orlando Pinto Ribeiro, defende tese semelhante. Em Curitiba, uma das formas para atrair novos usuários é o investimento em um novo sistema modal. "De acordo com a demanda, é preciso oferecer opções de bonde, trem, metrô e ônibus. Somar essas alternativas para evitar a utilização demasiada do carro", esclarece.
Os sistemas exclusivos de transporte como metrô permitem o planejamento da rotina das pessoas. No caso do ônibus, acidentes, congestionamentos ou até o elevado número de semáforos impedem esse tipo de organização. "Qualquer transporte que rode junto com outros automóveis impossibilita a organização dos compromissos", diz.
Planejamento
Coordenador de veículos do Departamento de Trânsito do Paraná (Detran-PR), Cícero Pereira da Silva afirma que os órgãos responsáveis pelo trânsito nas cidades devem pensar na redução de veículos nas ruas "antes que se torne impossível transitar". O Código de Trânsito Brasileiro (CTB) prevê que planejamento, regulamentação e operação do trânsito sejam de responsabilidade das entidades municipais. Conforme o CTB, também cabem às cidades a implantação de "medidas para redução da circulação de veículos e reorientação do tráfego, com o objetivo de diminuir a emissão global de poluentes".
Além de benefícios para o meio ambiente, a redução do fluxo de veículos nas cidades representa melhora de condição de vida para boa parte da população. Os congestionamentos, antes restritos às grandes cidades, já se disseminaram para o interior do estado. "Municípios como Londrina, Maringá estão sofrendo as consequências exatamente como Curitiba. Os problemas ainda não estão no mesmo nível da capital, mas já se percebe esse aumento da frota", afirma Silva.
Cicatriz
Antiga referência em termos de transporte coletivo, Curitiba pode, novamente, dar um passo à frente das demais cidades com a construção do metrô no eixo norte-sul. Contudo, a demora para se investir em outro sistema modal deixou cicatrizes. "Todas as praças do centro da cidade são voltadas para o transporte coletivo. Com isso, as pessoas circulam apenas entre esses pontos", afirma Ribeiro.




