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A menina Thainouche Noel, com 3.405 kg e 49 cm, filha do casal de haitianos Marie Carline Noel, de 28 anos, e Charles Noel, também de 28 anos, foi a primeira paranaense nascida em 2016. | Daniel Castellano/Gazeta do Povo
A menina Thainouche Noel, com 3.405 kg e 49 cm, filha do casal de haitianos Marie Carline Noel, de 28 anos, e Charles Noel, também de 28 anos, foi a primeira paranaense nascida em 2016.| Foto: Daniel Castellano/Gazeta do Povo

No primeiro minuto do primeiro dia de 2016, vinha ao mundo a pequena Thainouche. Filha de casal de haitianos vivendo há dois anos em Curitiba, a menina foi recebida em festa pela comunidade de imigrantes, que cresce a cada dia. Ela e tantas outras crianças nascidas em solo brasileiro simbolizam não apenas a presença, mas o enraizamento dessas famílias, em diversas cidades. Mas, e elas, as cidades, estão prontas para recebê-las?

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Segundo dados da Polícia Federal referentes a março de 2015, o Brasil abriga 1.847.274 de imigrantes (aproximadamente 0,9% do total da população do país), entre os quais 1.189.947 permanentes, 595.800 temporários, 45.404 provisórios, 11.230 fronteiriços, 4.842 refugiados e 51 asilados.

Contudo, a ausência de informações qualificadas sobre quem são essas pessoas e onde elas estão torna mais problemática a formulação de políticas públicas que as acolham devidamente. É preciso dizer, o cenário é ainda mais trágico para os imigrantes negros. Ao grande contingente de haitianos somam-se africanos de procedências distintas, porém experimentando dificuldades similares, que vão da precariedade habitacional à luta por inserção no mercado de trabalho. Sem outra alternativa, muitos convivem em canteiros de obras, em ocupações urbanas no centro ou em bairros periféricos das regiões metropolitanas brasileiras.

Também comum a ambas as diásporas, o racismo e a xenofobia. Racismo e xenofobia encenados, por quem os vive – literalmente – na pele, na peça Cidade Vodu, da Cia. Teatro de Narradores. Estreada na Vila Itororó, palco de resistência política em São Paulo, ela narra a trajetória dos haitianos e seus dilemas para integrar-se a uma sociedade arraigadamente desigual e preconceituosa. “E se o racismo for o sistema?”, questionam seus personagens.

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Cidade Vodu constou da programação do Festival de Curitiba, mas, por alegados problemas técnicos, não pôde ser encenada na Praça Tiradentes, território, hoje, notoriamente afro-haitiano. Assim mesmo, convida à reflexão: quantas histórias, pesares, lutas escondem as metrópoles vodus do Brasil e do mundo afora?

É que o racismo extravasa a discriminação direta e manifesta-se epistêmica e culturalmente. Também vai além das fronteiras nacionais, implicando na recusa consciente ou inconsciente do reconhecimento do Outro em sua humanidade. A subalternidade e a hierarquização das relações inter-raciais está presente nos banlieus de Paris, nas periferias de Bruxelas, de Sevilha, de Londres, de Estocolmo, entre outras. Cidades vodus, a seu modo. Não porque escondam algo de místico, mas porque não se deixam decifrar senão por olhos iniciados.

Como não reproduzir essa dinâmica global dos guetos? Como construir uma agenda de imigração fundada nos direitos humanos, casada a uma política urbana hospitaleira, que não reforce, antes enfrente a segregação sócio e étnico-espacial que fratura a pólis? Talvez os voduns, divindades habitantes deste país desde os tempos coloniais, trazidas pelos povos daomeanos, saibam a resposta. Para os mortais em travessia, do migrante nu de E. Glissant à vida nua de G. Agamben, o que se desnuda é a crueza de nossas cidades, a comprovar o provérbio haitiano de que partir não quer dizer que você chegou a algum lugar. Ainda.

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