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Saúde

Gás ozônio é capaz de matar superbactéria

Estudo revela que bactéria KPC, que causou centenas de mortes no país, pode ser inativada de forma simples. Testes em humanos começam em dois meses

Laboratório: apenas superbactérias KPC expostas a ozônio tornaram-se inativas | Marlene Bergamo/Folhapress
Laboratório: apenas superbactérias KPC expostas a ozônio tornaram-se inativas (Foto: Marlene Bergamo/Folhapress)

Um estudo concluído pelo Hospital das Clínicas (HC) de São Paulo conseguiu inativar a chamada superbactéria KPC (klebsiella, produtora de carbapenemase) utilizando gás ozônio. Hospitais de todo o país enfrentaram um surto da bactéria neste ano. A unidade da federação mais afetada foi o Distrito Federal, com 25 mortes. A técnica, testada apenas em laboratório, por enquanto, consegue destruir a camada de gordura e inativar a bactéria. A KPC é chamada de multirresistente porque não responde a antibióticos da classe dos carbapenêmicos (que são a maioria dos medicamentos disponíveis). Segundo o coordenador do estudo, Glacus de Souza Brito, da Divisão de Imunologia Clínica e Alergia do HC, os testes em humanos devem começar em 60 dias.

Dez bactérias foram analisadas e divididas em três grupos. O primeiro teve exposição ao ozônio por cinco minutos. O segundo, ao oxigênio e o terceiro não recebeu nenhum tratamento. Depois de um dia, as bactérias se multiplicaram nos últimos dois vidros, e as do primeiro morreram. A eficácia do ozônio, segundo Brito, se dá por causa da oxidação do gás. "O ozônio é uma das substâncias mais oxidantes que existe. Por isso, na hora que encontra a bactéria, é possível destruir rapidamente, em poucos minutos".

O ozônio tem um nível de oxidação três vezes maior do que o cloro, por exemplo. O pesquisador afirma que, além da KPC, outras bactérias resistentes podem ser combatidas com a mesma técnica. O ozônio, lembra ele, já é amplamente usado para tratamento de infecções em países da Europa. "Para curar uma ferida infeccionada com a bactéria, por exemplo, é possível envolver o local com um saco plástico e fazer vaporização com o gás", diz Brito.

Em humanos, o ozônio pode ser aplicado em pacientes com infiltração no local onde a bactéria está presente, ou com injeções, em casos de infecção interna. O ozônio, ressalta o pesquisador, é uma boa alternativa para os sistemas de saúde, pois é barato e pode diminuir os custos de internação e de compra de antibióticos. Na próxima etapa, o estudo vai investigar se a vaporização do ozônio no ambiente hospitalar é eficaz para eliminação de bactérias.

Casos

De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o Brasil tinha 330 casos de KPC no final de novembro. Porém, como a notificação pelas secretárias de Saúde não é obrigatória, o número está desatualizado. Só o último boletim da Secretaria de Saúde do Distrito Federal, divulgado no dia 10 de dezembro, registra 334 casos acumulados de janeiro à dezembro de 2010, sendo 25 mortes.

São Paulo teve cerca de 70 casos no HC. Segundo a Secretaria de Saúde, porém, os números são antigos e o estado hoje não tem surto. No Espírito Santo, seis casos foram confirmados entre abril e outubro deste ano, sendo três óbitos, sem relação direta de causa com a KPC.

No Paraná, foram 257 casos, segundo o superintendente de Vigilância em Saúde da Secretaria de Estado de Saúde (Sesa), José Lúcio dos Santos. Nos próximos dias, será publicada a Resolução nº674/2010, que estabelece a obrigatoriedade de notificação pelos hospitais no estado, centraliza as ocorrências na secretaria estadual e organiza as informações. "Assim, poderemos acionar as medidas de contenção mais rapidamente", enfatiza.

Em Curitiba, foram confirmados três casos no Hospital de Clí­nicas da UFPR e quatro no Hospital Evangélico, sendo um óbito. O Hospital Universitário de Londrina (HU) concentra o maior número de pacientes com a KPC. São 400, desde 2009, segundo a coordenadora da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH), Cláu­dia Carrilho. Atual­mente, 18 pa­cientes com a KPC continuam internados, em isolamento. "A bactéria já é endêmica e faz parte do ambiente hospitalar. Consegui­mos ter um bom controle, mas alguns casos persistem", afirma Cláudia.

Em abril de 2009 e julho deste ano, o HU suspendeu internações na UTI e restringiu atendimento em quase todo o pronto-socorro, como medida de barreira para infecções. Para Cláudia, a falta de recursos humanos combinada com a superlotação facilita esse tipo de surto. "Temos hoje materiais de higiene e medidas de controle de infecção. Porém, nem sempre há adesão dos funcionários, que reclamam da falta de tempo".

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