Ponta Grossa - Boa parte dos sessentões de hoje são fruto de uma geração que pouco se preocupava com a saúde: fumar era chique e dava status, além de ser um dos costumes difundidos pelos artistas de cinema da época. Na década de 60, usar drogas e consumir álcool era sinônimo de rebeldia, independência e transgressão. A prática de esportes ficava restrita aos atletas que dedicavam a vida às competições. O resultado desses abusos no passado é uma saúde fragilizada nos dias de hoje. Gente que fumou por décadas a fio, comeu o que quis sem se importar com as consequências na balança e passou longe de academia de ginástica hoje tem de correr atrás do tempo perdido.
Preocupados em recuperar o tempo perdido e ajudar na desintoxicação do organismo, muitos idosos estão recorrendo a tratamentos para diminuir as consequências de uma vida despreocupada na juventude. Para isso, exercícios físicos supervisionados por médicos, fisioterapeutas e outros profissionais de saúde podem fazer muita diferença se a intenção é recuperar o corpo dos abusos e evitar hábitos nocivos.
Segundo o médico Benjamin Apter, especialista em medicina esportiva e fisiologia do exercício, a prática regular de exercícios colabora no processo de desintoxicação. "Há vários estudos que comprovam essa tese. A atividade física estimula mudanças efetivas no sistema nervoso, imunológico, vascular, hormonal, músculo-esquelético e emocional, causando repulsa a vícios", afirma. Isso acontece porque o corpo recebe uma carga de serotonina, conhecido como hormônio do bom humor; e endorfina, que ajuda no relaxamento. Esses hormônios estimulam o bem-estar de forma natural e auxiliam no tratamento de problemas oriundos do uso de substâncias tóxicas. Para alguns especialistas, essa reação contribui até mesmo para que as pessoas não recorram a nenhum tipo de droga no caso de depressão ou tristeza excessiva.
Para que um tratamento semelhante dê resultados, principalmente para maiores de 60 anos, é necessário o acompanhamento por parte de profissionais da área de saúde. "Tudo deve ser supervisionado, os equipamentos tem de ser seguros e a atividade física programada para cada fase do tratamento", orienta Apter, que também é diretor da Academia B-Active, em São Paulo, especializada no trabalho com idosos.
Outro ponto essencial é a elaboração de um programa de exercícios de acordo com a necessidade e perfil de cada aluno, com o envio de relatórios aos médicos para acompanhamento da evolução física e clínica.
Experiência
O engenheiro civil Alberto Mayer, hoje com 62 anos, não teve muitos reflexos negativos em sua saúde por conta de exageros cometidos na juventude. Uma das causas disso é a constante prática de exercícios físicos. "Naquela época [década de 1970] muitos amigos meus usaram drogas. Também tive meus excessos, mas nunca com drogas ilícitas. Mesmo assim, sempre há maus resultados quando a gente exagera um pouco com álcool ou fumo", diz.
Atualmente, Mayer faz exercícios físicos de forma regular e percebe a diferença em seu organismo. "Fumei durante quase 40 anos e vejo agora como a atividade física me ajuda, me desintoxica e me recompõe. Tenho uma netinha e acompanho ela em tudo, sem nenhuma dificuldade. Tenho outro astral, me sinto mais vivo", comenta.
Outra vítima do cigarro é o contabilista aposentado Adalberto Bueno de Andrade, de 75 anos. Há 10 anos, ele teve de se submeter a uma cirurgia cardíaca e hoje pratica exercícios todos os dias para se manter em forma. "Quando eu era jovem, fumar era um hábito até bem visto pela sociedade. Mas as consequências aparecem. Dois anos depois de parar, fiquei sabendo que tinha problema de coração, reflexo do fumo", conta.
Ele salienta que não começou a se exercitar por causa dos problemas de saúde, mas que agora não larga a academia. "Faço tudo com supervisão do meu médico, pois por ser cardíaco tenho algumas restrições, mas me sinto muito bem. Durante quase toda minha vida não tive tempo para fazer exercícios físicos, mas dá pra sentir bastante a diferença na saúde e na disposição para fazer as coisas", conta.
Mudança
Com a prática de exercícios o organismo se reprograma e começa a produzir as condições ideais que afastam as pessoas dos vícios e retraem os efeitos causados pelo uso de drogas. É o que afirma o professor de Educação Física Geison Schmidt, que também é instrutor na Academia Motiva-Ação, em Ponta Grossa. "É importante dizer que a atividade física por si só não traz benefícios, principalmente se não for regular. Ou seja, aquele futebolzinho do final de semana nem sempre pode ser benéfico". O professor salienta também que para a terceira idade os exercícios aeróbicos e de baixo impacto podem trazer bons resultados.



