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Comportamento

Graças à bicicleta, elas abandonaram o espartilho

As mulheres começaram a pedalar por volta de 1869. Até então acreditava-se que a prática causava esterilidade e aborto

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Passaram-se oito anos entre a invenção da bicicleta, por volta de 1861, e os primeiros registros do uso da magrela por parte do público feminino (1869). Afinal, andar sobre duas rodas não era fácil para elas. A sociedade conservadora e machista não queria vê-las passeando sozinhas pelos espaços públicos: os homens se posicionaram contra o uso, e um grupo de médicos conservadores começou a dizer que o ato de pedalar causaria esterilidade e aborto. O vestuário acabou sendo outro empecilho. Era inimaginável ver mu­­lheres vestindo calças, mas também era impraticável andar de bicicleta com os vestidos pesados da época e, principalmente, com o espartilho.

Entre a escolha de manter as tradições ou abolir alguns costumes, as mulheres francesas e americanas adotaram o movimento feminista e montaram em suas bicicletas. "Foi um dos fatores que favoreceram a mulher a começar a luta pelos seus direitos", afirma o historiador e professor de Educação Física Victor Andrade de Melo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

O espartilho foi o primeiro a ser abolido, porque era usado tão apertado que durante os passeios de bicicleta deixou muitas mulheres com falta de ar. E, mesmo tirando uma parte do vestuário, elas ainda ficaram com muitas roupas. Para andar de bicicleta, usavam saias com calças por baixo, botas e mantiveram os pentea­dos elaborados da época. "Como a bicicleta era um meio de transporte caro, foi o público feminino das elites que começou a usá-la como opção de lazer. As estilistas, aproveitando a nova moda, passaram a desenhar figurinos para os passeios de bicicleta", diz o professor André Schetino, coordenador do curso de Educação Física do Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix. Os modelitos, mesmo assim, ficaram longe de ser confortáveis. O ideal era usar uma calça bem apertada, mas isso só foi possível bem mais tarde, no outro século.

A mulher era vista como o sexo frágil e que deveria cumprir, primordialmente, a função de reproduzir. Por isso um grupo de médicos franceses começou a questionar o fato de elas terem de fazer muito esforço para pedalar, o que poderia levá-las à infertilidade. Estes cientistas também começaram a dizer que a fricção do órgão genital feminino no banco poderia prejudicar a reprodução e, ainda, criaria mulheres depravadas. Por sorte, um outro grupo de médicos, depois de algumas pesquisas, provou à sociedade que o exercício com a bicicleta fazia bem à saúde do público masculino e feminino. O francês Ludovic O’Followell foi além, atestando que uma mulher realmente "depravada" ficaria excitada em diversas outras situações, não apenas andando de bicicleta.

Competição

A conquista foi árdua. Somente em 1894 a americana Annie Kochovsky aceitou o desafio proposto por um jornalista de um clube masculino de Boston, que afirmou não haver mulher que conseguisse dar a volta no mundo com uma bicicleta. "Ela abandonou a família, adotou o sobrenome de uma marca de água que a patrocinou e começou a vender cotas do patrocínio por onde passava", explica Melo. No decorrer da jornada, Annie vai abandonando as roupas femininas e passa a usar as masculinas. Retornou ao país depois de um ano e três meses e foi bem recebida pelos periódicos da época.

Nas filmagens de Lumière também é possível perceber que o movimento feminista permitiu que a bicicleta se popularizasse: em uma película de 1895, Lumiè­­re mostra mulheres saindo de uma fábrica com suas bicicletas. Ou seja, o valor de compra caiu e ela passou a ser usada como meio de transporte individual. "Assim como hoje existe o consórcio para automóveis, na época as pessoas adotaram o consórcio das bicicletas", afirma Schetino.

No Brasil, porém, esta evolução demorou mais para acontecer. A bicicleta passou a ser usada por elas na transição ao século 20, mas o grupo que a usava era tão pequeno que não teve muita expressão. A repressão ao uso era tão grande que outros esportes como a maratona, o salto triplo e as lutas marciais foram proibidos às mulheres brasileiras até meados de 1980.

Serviço:

Para saber mais sobre a história da bicicleta, consulte os livros: Esporte, lazer e artes plásticas: diálogos, de Victor Andrade de Melo; e Pedalando na modernidade: a bicicleta e o ciclismo na transição dos séculos XIX e XX, de André Schetino.

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