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Meio ambiente

Guarda-te lá, que eu aqui bem fico

O título acima foi a suposta frase dita por um fazendeiro da região de Tibagi no século 18, quando soube que os índios Caingangues planejavam atacar um de seus vizinhos. Localizado no cânion do Rio Iapó, o sexto maior em extensão do mundo, o Guartelá já foi lugar de passagem de índios, tropeiros, mineradores e jesuítas. Hoje, é visitado por turistas que buscam bosques, cachoeiras, trilhas, grutas e matas nativas.

Criado em 1992, com o objetivo de proteger o ecossistema local, o Parque Estadual do Guartelá possui inúmeros atrativos naturais, configurados nas suas belas paisagens e formações rochosas. Com a companhia obrigatória de um guia, é possível tomar banho nos Panelões do Sumidouro, visualizar inscrições rupestres e se deslumbrar com a imensidão do cânion nos mirantes do parque. Uma das impressões mais bonitas do lugar é a cachoeira da Ponte de Pedra, com quase 200 metros de altura. No meio da queda, o Arroio do Pedregulho atravessa a rocha, formando uma ponte que corta a cachoeira.

As pedras do Guartelá são quase todas areníticas, tendo a mesma fragilidade do Parque de Vila Velha. Por isso, vários pontos estão interditados ao turista. Já não é possível, por exemplo, conhecer o fim da queda do Arroio Pedregulho, que desemboca no Iapó, ou ficar em cima da Ponte de Pedra. Essas restrições são agravadas com a falta de funcionários fixos no local. Gelson de Oliveira, conhecido como Baiano, é o único guarda-parque do Guartelá. "Nos finais de semana contamos com a ajuda de quatro ou cinco voluntários. Mas quem trabalha no parque mesmo, como contratado do IAP (Instituto Ambiental do Paraná), sou apenas eu e o gerente".

Por causa da falta de pessoal, uma série de medidas foram tomadas para facilitar o controle do parque. A trilha para a Gruta da Pedra Ume, um dos passeios mais completos e interessantes do complexo, quase nunca está liberada. Até a boa estrutura do camping foi fechada. "Quando grandes grupos de turistas se hospedavam no camping, geralmente ocorria muita bagunça e vandalismo. Na falta de fiscalização, optamos em proibir o camping dentro do parque", conta Baiano.

Depois que a área de preservação foi criada, passava pela portaria do local uma média de 500 pessoas por final de semana. Hoje esse número está diminuindo. Enquanto o Parque Guartelá é procurado apenas pelo turismo contemplativo de um dia, pousadas e fazendas adjacentes estão investindo em roteiros alternativos, infra-estrutura e opções de aventura para vários dias. O exemplo mais concreto é a Reserva Ecológica Itaytyba, que possui um mirante localizado bem em frente ao parque estadual.

Itáytyba em tupi-guarani significa abundância de águas e pedras, mas também poderia ser traduzida em história e belezas naturais. Para chegar até a reserva é necessário pegar a Rodovia Transbrasiliana (BR-153) entre Tibagi e Ventania. O acesso é por estrada de chão, sendo um dos poucos trechos da BR que nunca foi asfaltado. O empreendimento faz parte da fazenda Santa Lídia do Cercadinho, de propriedade da família de Regina Maura Gasparetto Arnt, que juntamente com o marido Ivo Carlos Arnt e seus filhos, destinaram 1.090 hectares de terra para ser uma reserva particular do patrimônio natural. "A intenção é assegurar a preservação dos ecossistemas típicos, da beleza dos cânions, cachoeiras e das insinuantes formações rochosas que temos na região", explica Lúcia Regina Arnt Ramos, diretora-executiva da Itáytyba. Algumas formações da Reserva Ecológica lembram figuras curiosas como a caveira e a galinha. Outras são marcadas por grutas e patamares que um dia serviram de abrigo aos numerosos indígenas que existiam na região.

Até o século 18, o Guartelá era infestado por índios Caingangues. O primeiro aventureiro a se estabelecer ali foi o sargento-mor português José Félix da Silva, que protagonizou na época sangrentos conflitos pela posse das terras. José Félix chegou ao Brasil em 1774, quando recebeu uma sesmaria do rei de Portugal com mais de 80 quilômetros de extensão de uma ponta a outra. Sua primeira preocupação foi construir uma fortaleza, próxima a Itáytyba, para morar e defender-se dos ataques dos índios caingangues.

"Uma vez, o fazendeiro recebeu a visita do amigo Brígido Alves. Este continuou a viagem sem escolta e foi morto pelos caingangues que, noutro dia, espetaram sua cabeça na porteira da Fazenda Fortaleza com uma flecha em cada olho", conta o escritor André Coraiola em seu livro "Capital do Papel". Em represália, José Félix realizou a "chacina do Tibagi". Reuniu gente, armas e perseguiu os caingangues que praticamente foram exterminados. "O sangue empapou o campo no local conhecido como Mortandade, onde hoje está situada a Vila de Harmonia no município de Telêmaco Borba", completa Coraiola.

Apesar de cada fazenda possuir uma história diferente e envolvente, nada se compara ao potencial ecoturístico da Fazenda São Damásio, localizada no km-38 da rodovia Tibagi – Castro (PR-340). Antiga propriedade escravocrata, a fazenda guarda paredões abruptos do Cânion Guartelá, além dos arenitos que despontam nos vastos campos ao redor. O visitante adentra 4 quilômetros dentro da propriedade, passando por capões de matas nativas, lavouras e pastagens. "Quero cobrar uma pequena taxa para quem for acampar aqui. Sempre peço aos turistas para fecharem as porteiras que dão acesso ao cânion, senão o gado vai para o brejo", conta Frederico Zens, proprietário da fazenda.

A paisagem campestre do local já foi cenário para diversos documentários, entre eles o filme "O Preço da Paz", que conta a história da Revolução Federalista brasileira. Diante de tanta beleza, a Fazenda São Damásio tem tudo para se tornar uma das grandes atrações dos Campos Gerais, se for trabalhada de forma sustentada. Enquanto isso, ao longo do mais extenso cânion do país, pousadas e hotéis-fazenda proliferam nos dois lados do Iapó. O Guartelá, que já foi o preço da paz, logo não terá preço que pague.

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