
Um "manual de sobrevivência do calouro", editado por veteranos do curso de Direito da Universidade Federal do Paraná (UFPR), causou polêmica e atos de repúdio entre os alunos ao afirmar que as calouras têm a "obrigação" de manter relações sexuais com os colegas mais velhos. O texto foi distribuído na primeira semana de aula, no início de março, por membros do Partido Democrático Universitário (PDU), que comandou o centro acadêmico do curso até 2011.
O documento, intitulado "Como cagar em cima dos humanos em 12 lições" (em referência aos pombos que habitam o prédio histórico da universidade, na Praça Santos Andrade), dá dicas de onde comer e beber por preços baixos e trata de forma bem-humorada problemas como a precariedade da infraestrutura universitária. No final do texto, no entanto, os alunos citam o Código Civil Brasileiro e dão "argumentos", baseados na lei, para que os calouros "se deem bem na vida amorosa" (veja reprodução acima).
Após a divulgação, o partido de oposição ao PDU, o Partido Acadêmico Renovador (PAR), que dirige o centro acadêmico, calouros e grupos de esquerda da UFPR denunciaram o teor do manual.
Crítica
Ontem, vários alunos do curso comentavam e criticavam o documento na sala do Centro Acadêmico Hugo Simas (CAHS). "Eu me senti ofendida. A mulher é retratada como um objeto. Algumas pessoas podem dizer que isso é uma brincadeira, mas não é. Esse manual naturaliza um sentimento de violência, de que a mulher deve ficar à disposição do homem e servi-lo mesmo sem a sua vontade, o que pode levar a casos como os que a gente vê de tentativas de estupro na universidade", afirma Luana Carvalho Rodrigues, uma das secretárias do CAHS, que não é filiada a nenhum dos partidos.
O argumento do PDU de que o ato foi uma brincadeira causou revolta entre os membros do Grupo de Gênero do curso. De acordo com o aluno do 2.º ano Robson Gil, os estudantes estavam cientes de que brincadeiras como essa não eram mais bem vistas, uma vez que projetos de conscientização já haviam abolido músicas e ações de teor machista.
"Não acho que isso seja apenas brincadeira, uma piada. É engraçado o fato de que mulheres são estupradas todos os dias? Ou de que uma em cada cinco mulheres sofre violência no país? Se isso é engraçado, precisamos rever o conceito que temos do que é humor", diz a aluna do 5.º ano e membro do Grupo de Gênero, Tchenna Maso. Na próxima segunda-feira, o grupo pretende reunir alunos de Direito e de toda a universidade para decidir se denunciam o caso à direção do curso.
"Jamais o grupo teve intenção de ofender"
O presidente do Partido Democrático Universitário (PDU), André Arnt Ramos, disse que a intenção do documento era saudar de forma divertida e jocosa os calouros do curso. Ele afirma que o trecho que causou a polêmica não foi redigido pelos alunos que assinam o manual, e sim retirado de um manual antigo.
"Eu, pessoalmente, considerei [o trecho] de mau gosto, mas jamais o grupo teve a intenção de ofender alguém. Tenho o dever moral de pedir desculpas, mas não participei da redação." Para ele, o PDU foi alvo de uma perseguição por parte do Partido Acadêmico Renovador (PAR).
Sobre a alegação de alguns estudantes de que o manual incita a violência e o estupro, Ramos diz se sentir ofendido e que pode processá-los criminalmente. "Há pessoas que estão nos chamando de fascistas e estupradores. A acusação é séria e desleal, e pode ser tipificada como calúnia."
Ele afirma que o grupo foi vítima de uma rotulação injusta e que o PDU promove os direitos das mulheres. "A única presidente mulher do centro acadêmico até hoje pertencia ao PDU. Na última eleição, dos três secretários do partido, dois eram mulheres. E quase metade das pessoas que assinam o documento são mulheres."
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