Quando se pensa em Revolução Russa, o que vem à mente são sempre o nome de homens que estiveram à frente do Partido Comunista: Lenin e Trotski, por exemplo. Mas quem também lutou e conseguiu grandes avanços ao levantar a bandeira em defesa de um direito foram as mulheres russas. Com as palavras de ordem "socialismo" e "igualdade", elas contribuíram para a libertação do sexo feminino no mundo. Há poucos registros acerca do assunto. Os livros publicados sobre o papel das russas na Revolução, entretanto, de forma um tanto quanto romantizada, contam histórias de mulheres com lenço vermelho na cabeça, uma saia gasta e uma jaqueta de inverno remendada: elas marchavam cheias de determinação em busca de direitos que até então não existiam no império russo e em nenhum outro lugar.
Não se podia imaginar que as mulheres, em uma sociedade essencialmente comandada por homens, conseguiriam ter acesso ao mercado de trabalho no início do século 20. É verdade que a falta de mão-de-obra masculina, em decorrência da Primeira Guerra Mundial, impulsionou as mulheres a trabalhar nas fábricas, na agricultura e até mesmo a zelar pelas propriedades: as camponesas (sem o marido que havia ido para a guerra) tomavam a terra dos antigos donos e arrancavam a aristocracia dos postos onde ela se alojou por muito tempo. Historiadores, entretanto, divergem sobre estes aspectos. O professor de História Contem-porânea Estêvão Chaves de Rezende Martins, da Universidade de Brasília, diz acreditar que as mulheres conquistaram o acesso ao trabalho em todo o mundo, não somente na Rússia, porque havia a falta de homens em vários países em decorrência da Grande Guerra. "O que se pode reconhecer nas russas é que depois que começaram a trabalhar elas não largaram mais o posto", explica. "Ao garantir a permanência, elas conquistaram uma posição de força: para continuar nas fábricas, pedem gradualmente para que tenham acesso à formação intelectual sem restrições. Aí elas começam a ser aceitas nas universidades e conseguem mais um direito."
Disposição
O historiador Angelo Segrillo, da Universidade de São Paulo, da Universidade Federal Fluminense e do Instituto Pushkin de Moscou, defende que não foi a falta de mão-de-obra masculina que permitiu às mulheres russas trabalhar. "Mesmo que a guerra não tivesse existido, o movimento marxista tinha disposição de fazer não só a libertação de classes, mas de nacionalidades, das mulheres", diz. "Independentemente da falta de homens, com o Comitê Central de mulheres (que tinha Alexandra Kollontai à frente) elas conseguiram implementar diversas políticas." Além de trabalhar e ir às universidades, elas conquistaram o direito ao voto. Importante lembrar, porém, que mesmo com estas aberturas, elas nunca chegaram a ocupar o topo de um partido político, pois este continuava sendo "machista." "Elas estavam na base dos partidos e, quando tiveram esta liberdade (após 1923 até 1930) de fazer parte da política, certamente não representavam 20% do total", explica Estêvão.
Por conta de uma sociedade machista enraizada, a igualdade de direitos parece ter ficado somente no discurso e no papel, mesmo que tenha ajudado as mulheres a conquistar condições de vida antes impensáveis. Elas entraram no mercado de trabalho, foram para as universidades (antes da Revolução, cerca de 84% das mulheres russas até aos 49 anos eram analfabetas), criaram estruturas de apoio na sociedade, como creches, lavanderias e restaurantes. Não mudaram, entretanto, o padrão de sociedade do mundo. A dupla jornada trabalhar fora e em casa nunca efetivamente acabou. "Nos anos 20, houve um sério rompimento para tentar evitar ao máximo deixar para as mulheres as tarefas domésticas. Mas nos anos 30, quando Stalin assumiu, o país voltou a ser burocrático. Pela lei elas não deveriam ter dupla jornada, mas na prática é a mulher que acaba fazendo isso", diz Segrillo.
A editora da revista Marxismo Vivo, Cecília Toledo, lembra que foi curto o período que as mulheres tiveram para aproveitar as conquistas logo depois da guerra civil, em 1921, até Stalin entrar no poder, em 1930. "O jovem estado operário não teve tempo de consolidar as conquistas", explica. "Depois da morte de Lenin, houve um retrocesso em todos os âmbitos sociais." Stalin acabou com a geração de revolucionários, restaurou princípios e valores patriarcais e muitas mulheres foram condenadas, inclusive Alexandra Kollontai, líder feminista que aderiu ao stalinismo. "Hoje o capitalismo foi restaurado na Rússia e as mulheres voltaram a uma situação de desigualdade em relação aos homens, como ocorre em qualquer Estado burguês", opina Cecília. "No entanto, não é fácil apagar da memória das gerações posteriores uma mudança tão brutal."
Polêmica
A polêmica frase de Lenin, de que nenhum governo fez mais pelas mulheres do que o soviético, parece ecoar pelos quatro cantos do mundo. A historiadora Vera Lúcia Vieira, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, acredita que Lenin foi um dos revolucionários que denunciou várias vezes a situação de subordinação das mulheres, a ausência de direitos e a opressão em que se encontravam. Mesmo depois das leis definidas após a Revolução, em 1917, (veja ao lado), Vera explica que Lênin continuou enfatizando em seus discursos que ainda era necessário fazer muito mais para que estas fossem reconhecidas enquanto iguais. "Em 1919, em um texto intitulado A contribuição da mulher na construção do socialismo, ele defende a tese que o germe do comunismo estava no trabalho que cotidianamente era destinado às mulheres."



