
Brasília - O apagão da noite de terça-feira logo virou motivo de disputa política, lembrando um dos maiores incômodos vividos pela gestão Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). Os blecautes de 2001 estiveram entre os principais argumentos que levaram à ascensão da oposição e de Lula ao Palácio do Planalto. Já a queda de energia de anteontem ocorreu no mesmo dia em que a candidata petista Dilma Rousseff subiu quatro pontos porcentuais nas intenções de voto para 2010.
De acordo com o instituto Vox Populi, a ministra da Casa Civil subiu de 15% para 19%, em relação à sondagem divulgada em outubro. O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), caiu de 40% para 36%. O apagão, porém, anulou qualquer comemoração explícita entre os governistas.
"O apagão de 2001 mexeu com a vida das pessoas, que tiveram de se adaptar às sobretaxas na tarifa de energia, à economia forçada. Isso teve um reflexo óbvio nas eleições do ano seguinte", lembra o cientista político Leonardo Barreto, da Universidade de Brasília. Segundo ele, o problema foi usado pelo PT para apontar duas supostas fragilidades do governo do PSDB: a incapacidade administrativa e o fracasso das privatizações no setor.
Oito anos depois, também há motivos objetivos para ligar Dilma a uma suposta falta de competência do governo do PT na gestão do sistema elétrico nacional caso seja comprovada a existência de um problema estrutural. Além de "mãe" do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), ela foi ministra de Minas e Energia entre 2003 e 2005. Evitar novos blecautes sempre foi tratado como uma bandeira pessoal de Dilma.
No dia 29 de outubro, em entrevista durante o programa de rádio "Bom dia, ministro", Dilma garantiu que o país estava a salvo de um novo apagão. "Nós também temos uma outra certeza, que não vai ter apagão. É que nós hoje voltamos a fazer planejamento. Então, nós olhamos, qual é a necessidade que o Brasil tem de energia nos próximos cinco anos? Nós, ao olharmos isso, providenciamos as usinas que são necessárias para o Brasil, se crescer a quatro, se crescer a cinco, se crescer a seis por cento ao ano tenha essas usinas disponibilizadas. É assim que funciona", disse.
O temor de qualquer comparação entre os dois casos ficou evidente. Ainda na noite de terça-feira, o presidente nacional do PT, deputado federal Ricardo Berzoini (SP), qualificou como "aves de rapina" políticos da oposição e jornalistas que tentam fazer conexão entre os dois problemas. "Em 2001, vínhamos de um período de falta de investimento que resultou naquela situação bastante grave", afirmou.
A oposição no Congresso Nacional, porém, não perdeu tempo e partiu para o ataque contra Dilma. Parlamentares do DEM e do PSDB na Câmara dos Deputados e no Senado apresentaram 18 requerimentos de informações ao Ministério de Minas e Energia sobre os motivos do apagão. Eles também querem que a ministra e o atual responsável pela pasta, Edison Lobão (PMDB-MA) sejam convocados para dar explicações.
Por último, a oposição pretende ressuscitar a polêmica sobre o pedido de demissão do ex-ministro de Minas e Energia, Silas Rondeau. Ele se afastou do governo em maio de 2007, após ser apontado como beneficiário de um suposto esquema de fraudes em licitações de obras públicas. O escândalo foi desencadeado pela Operação Navalha, da Polícia Federal (PF).
Na época, a PF usou imagens de uma funcionária da construtora Gautama que entrou no prédio do ministério por um elevador privativo com um envelope pardo que supostamente continha R$ 100 mil. O líder do DEM na Câmara, Ronaldo Caiado (GO), não escondeu a conotação política que o partido pretende dar ao apagão. "Foi a pá de cal na candidatura da ministra", disse.
Já o senador paranaense Alvaro Dias (PSDB) disse que o mais importante é o esclarecimento dos fatos. "Estamos falando de um episódio que gerou repercussão internacional justamente quando estamos nos preparando para receber dois grandes eventos mundiais (a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro). É a credibilidade do país que está em jogo."



