Assim que botou os pés em Curitiba, o turista francês Jean Charles Gardrat, 29 anos, refez seu roteiro. Sempre que chega a uma cidade nova, Gardrat sai caminhar pelo Centro e deixa-se perder pelas ruas do novo destino. Foi assim nas mais de dez cidades pelas quais ele passou nos dois meses de férias pelo Brasil, na companhia da noiva Virginie e do casal de amigos Olivier e Caroline. "Só que não dá para sair assim. Antes, vamos todos passar num shopping e comprar roupas. Está muito frio", diz ele. Pudera. Os quatro franceses, todos médicos, saíram com as mochilas nas costas da Guiana Francesa e chegaram ao Brasil pelo Macapá, passando por São Luís, Recife e Fortaleza, entre outros representantes do binômio praia e sol, tão procurado pelos estrangeiros.
Na capital paranaense, a surpresa: termômetros na casa dos 5ºC, chuva e tempo feio. "Achávamos que não íamos precisar de roupa de frio. É um país muito grande, né? Lá em cima é bem quente. Aqui esse tempo assim", diz Gardrat, em um português bem razoável, fruto do seu trabalho junto a colegas brasileiros na Guiana.
O quarteto francês faz parte de uma legião de jovens e nem tão jovens assim que opta por girar o mundo apostando no preço baixo e na sociabilidade dos albergues, ou hostels, acomodações mais simples que os hotéis. Os albergues colocam três, quatro, seis e até dezoito camas no mesmo quarto. Os banheiros são geralmente coletivos e as cozinhas também. Cada um pode fazer sua comida, desde que lave a louça.
O primeiro hostel, ou albergue para a juventude, nasceu na Alemanha em 1912. Em 1932 já havia uma Federação Internacional de Albergues da Juventude Hostelling International. Foi após a Segunda Guerra que o movimento ganhou mais força e o conceito chegou ao Brasil, com a instalação dos primeiros albergues no país.
Em Curitiba, o fenômeno é mais recente. A cidade sempre foi apenas um meio de passagem dos mochileiros que estavam em trânsito entre São Paulo/Rio de Janeiro e Foz do Iguaçu. O primeiro albergue de Curitiba funcionou na Rua Carlos de Carvalho já nos anos 1980. "Geralmente o mochileiro passava uma noite aqui, antes de seguir viagem. Hoje, ele já fica dois, três dias em média. O turista brasileiro, de outras regiões, vem atrás do frio. O estrangeiro gosta dos parques e do jeito da cidade", diz Sérgio Zuffo, do Hostel Roma, no centro de Curitiba.
Experiência e necessidade
Filiados ao Hostelling International estão apenas dois albergues em Curitiba: o Roma e o Eco Hostel, no Campo Comprido. Ambos foram criados há mais ou menos cinco anos e têm recebido cada vez mais clientes. "Europeus, americanos, argentinos e brasileiros. Todo esse pessoal que viaja uma vez e fica num hostel, não troca mais isso por outro tipo de hospedagem", conta Rodrigo Martello, proprietário do Eco Hostel.
Ele sabe do que fala. Passou a viajar com o irmão quando era adolescente. Passou pela Europa e Estados Unidos. Na volta, os irmãos resolveram utlizar um terreno da família, no Campo Comprido, para construir o próprio albergue. "É o que a gente gosta de fazer. Receber e conhecer pessoas. Quando não estamos aqui, estamos viajando. Meu irmão, inclusive, ligou dizendo que vai ficar mais um mês na América Central. Era para ficar um e já está há três, dormindo em hostel, é claro."
Se a experiência fez nascer o Eco Hostel, a necessidade incorporou o Hotel Roma à rede. Funcionando no mesmo local como hotel desde 1886, o Roma passava por uma crise de identidade por volta de 2003. Os tempos áureos da Barão do Rio Branco tinham ficado para trás, os clientes diminuíram e a família estava envolvida em outras atividades. Foi quando dois amigos alemães que procuraram um hostel em Curitiba e não acharam acabaram por ficar no Roma, graças à indicação de um taxista. Gostaram das instalações antigas e rústicas e, de volta à Alemanha, enviaram um e-mail à Federação Internacional sugerindo a inclusão do Roma na rede. O pedido passou pela Federação Brasileira, pela Paranaense e chegou no Roma. A família resolveu arriscar e Francielli, filha de Sérgio, foi escolhida para tocar o negócio. A aposta mostrou-se acertada. Os mochileiros deram novo ânimo ao Roma. Com o limite de idade para hospedagem abolido pela rede, o hostel orgulha-se de ter recebido uma senhora inglesa de 88 anos que conheceu o mundo sozinha. Também é motivo de festa a hospedagem de uma israelense, filha do presidente de uma grande companhia de telefonia. "Ela poderia ter ficado em qualquer suíte da cidade, mas quis ficar aqui", explica Sérgio.
Babel festiva é o diferencial dos albergues
A babel festiva que se forma nas áreas comuns de um hostel é o grande trunfo desse tipo de hospedagem em relação aos demais. Para integrar a rede, a Federação Internacional exige espaços coletivos de socialização. É aí que a festa acontece. "Quem fica em albergue quer conhecer lugares, mas quer conhecer pessoas também", diz Rodrigo Martello, proprietário do Eco Hostel, que tem uma conta de MSN repleto de contatos e amigos que ele fez viajando ou se hospedando.
A americana Caroline Messer, 28, está seguindo à risca essa regra. Viajando sozinha, ela já passou pela Argentina e pela Bolívia. No Brasil conheceu o Rio de Janeiro e, depois de Curitiba, ainda não sabe que rumo seguir. "Disseram que Foz do Iguaçu é maravilhosa. Devo ir?", questiona a mochileira, que afirma ter feito amigos em todos os albergues pelos quais passou.
Um pouco mais definidos em relação ao roteiro, os amigos ingleses Neal Gaunt, 30, Sam Shone, 26, e Paul Hinchliffe, 21, passaram pelo Rio de Janeiro, São Paulo e ainda querem conhecer Foz do Iguaçu e Buenos Aires. Da estadia no Brasil, só elogios. "A música é brilhante", diz Neal. O único porém ficou para a cerveja brasileira. "É até boa, mas é meio fraca", diz ele, fazendo jus à fama dos ingleses de acabarem com os estoques de cerveja por onde passam.
Já a carne é uma unanimidade, segundo Martello. "Nos churrascos aqui no final de semana, os europeus chegam a tirar foto da carne indo pra grelha. E quando japoneses e indianos resolvem preparar a comida deles, todo mundo para para olhar." Coisas de hostel.




