Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Entrevista

“Imagino ser a grande surpresa”

Professora, advogada e negra. Dora Lúcia de Lima Bertúlio saiu do anonimato para ousar disputar uma das vagas mais cobiçadas no meio político: o de conselheiro do Tribunal de Contas do Estado. O cargo é considerado uma espécie de prêmio pelos atrativos. Além do salário – R$ 18 mil mensais –, é vitalício e sinônimo de status e poder.

Não é à toa que 24 candidatos se inscreveram para a eleição marcada para terça-feira na Assembléia Legislativa. O curioso é que nunca a disputa para o TC atraiu tanta gente, a maioria, de fora do circuito político. Na última eleição, em 26 de abril de 2000, concorreram apenas Heinz Herwig e o deputado estadual Basílio Zanusso, que perdeu por um voto.

O favorito agora é o candidato do governo, o vice-governador Orlando Pessuti (PMDB), que tem o voto da maioria da bancada aliada, formada por 35 integrantes. Dos 54 deputados, só dois concorrem: Durval Amaral (PFL) e Mário Sérgio Bradock (PMDB).

Os três seriam os únicos a dividir os votos dos parlamentares, mas a professora Dora também entrou no páreo. "Imagino ser a grande surpresa", prevê. Ela já recebeu o apoio declarado dos cinco deputados do PPS, de dois petistas e de Neivo Beraldin (PDT), que lançou a candidatura da advogada. Amanhã, a bancada estadual do PT se reúne para discutir a adesão de outros parlamentares.

No currículo que está distribuindo aos deputados na hora de pedir o voto, Dora Lúcia apresenta sua experiência: exerce o cargo de procuradora da Universidade Federal do Paraná (UFPR); é mestre em Direito pela Harvard School of Laws, de Massachusetts (EUA) e pela Universidade Federal de Santa Catarina. É professora universitária e tem história de ativismo na defesa dos Direitos Humanos.

Mesmo argumentando preparo técnico, a própria Dora Lúcia está ciente da dificuldade de vencer uma eleição desta natureza. Além do mais, o Tribunal de Contas nunca teve um afrodescendente ou uma mulher no seu quadro de conselheiros. Mas nada ofusca o ânimo da candidata: "Ganhar votos e levantar a discussão sobre o assunto já é uma vitória", diz.

O apoio de vários deputados chega a surpreender?Esse apoio significa ver finalmente a sociedade em conjunto com os políticos tomando posições que sejam democráticas. Eu vejo que o meu nome está representando um tomada de posição, ao qual me orgulho profundamente de estar presente nesse movimento, que é de mostrar à sociedade que temos possibilidade de estarmos em posições de poder com competência e seriedade.

O Tribunal de Contas é historicamente ocupado por políticos. Acredita nas suas chances mesmo não fazendo parte desse meio?Vejo como muito positivo, não no sentido pessoal, mas do que representa o meu nome. Não sou ligada aos meios políticos, mas tenho absolutas condições de exercer o cargo. Deve ser uma boa escolha para o Tribunal. O apoio dos deputados tem muito a ver com esse novo movimento da democracia para quebrar parâmetros anteriores que sejam elitistas. Historicamente o Tribunal e outros espaços têm representações dirigidas por grupos muito restritos, poderes políticos de elite, tanto que provavelmente minha fala tenha sido mal interpretada ao dizer que o movimento já foi vitorioso porque a sociedade está ganhando espaço.

Por que mal interpretada?Quando eu falo que a candidatura e a discussão já são positivos não significa que eu não esteja concorrendo. É claro que estamos e isso pressupõe os melhores resultados.

A sua candidatura é de oposição ao nome defendido pelo governo?Eu acho que esse tipo de embate só é válido quando as forças têm liberdade de fazer suas proposições. Eu não gostaria de me colocar contra o governo, mas como uma possibilidade de estar numa posição de poder com competência e representando a sociedade por não pertencer aos grupos de poder mais elevados.

A sua candidatura representa apenas o movimento afrodescendente?Não estou ligada a um partido ou grupo, mas a uma idéia. Posso estar representando esse movimento de mudança do que seria a composição dos poderes. Por certo o fato de ser mulher e negra me dá a possibilidade de dizer à sociedade o quanto a mulher e a população negra tem competência para concorrer aos mais variados cargos para a sociedade.

E o preparo técnico para o cargo? Não entraria nessa disputa sem me sentir segura do meu conhecimento técnico em administração pública. Trabalho há mais de 30 anos na área e tenho ocupado cargos de destaque, até por ser procuradora federal, meu trabalho sempre foi na área de administração pública. Sou conhecedora dos meandros desse setor, o sistema de execução e controle. Tenho trabalhado mais com o Tribunal de Contas da União, mas que é bem parecido com o Tribunal de Contas do Paraná. A única diferença é que um controla recursos federais e o outro recursos estaduais.

A senhora concorda com a forma de escolha do conselheiro?Essa é uma questão que tem que ser discutida pela sociedade. Essa minha candidatura tem também o objetivo de promover um debate sobre requisitos e formas de indicação para determinados cargos. Vejo que há a intenção de encontrar uma fórmula mais adequada para a escolha do conselheiro. A Constituição tem critérios objetivos, mas deixa aberto para que essa objetividade seja embrenhada. É uma reflexão que tanto o poder público como a sociedade devem fazer, mas para as próximas indicações. Talvez devêssemos discutir mais relações de poder e refletir para manter ou não o atual critério, mas temos que fazer com que a indicação tenha maior conteúdo democrático.

Qual a sua expectativa para a eleição?Imagino ser a grande surpresa. Creio que eu deva fazer um bom papel e isso me deixa muito orgulhosa. Posso contribuir de forma significativa para cargos de alta importância.

O voto secreto ajuda ou atrapalha a sua candidatura?O voto secreto para esses cargos é algo constitucional, não teria o que comentar a respeito, mas penso que cada um dos deputados e concorrentes deve estar de alguma forma aflito ou contemplado.

O que pesou na sua decisão de concorrer ao cargo?Foi uma surpresa para muitos por não pertencer ao grupo político tradicional, mas estou tranqüila em relação à minha apresentação. A primeira consulta foi familiar, o que foi muito positiva. Depois consultei o reitor da Universidade Federal, que é da minha confiança e respeitabilidade, e recebi incentivo.

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.