Cento e oito anos de história praticamente desapareceram no incêndio que tomou conta da sede da Sociedade União Juventus, na Carlos de Carvalho, bairro Bigorrilho, em Curitiba. O fogo começou por volta das 5h15 de ontem, na secretaria do clube, e se alastrou rapidamente, devido à grande quantidade de papel e móveis de madeira existentes no prédio. Seis viaturas do Corpo de Bombeiros foram chamadas, mas mesmo assim o fogo só foi controlado duas horas depois. Cerca de 60% do prédio foi destruído e com ele documentos históricos que registravam a fundação da sociedade e a imigração polonesa no Paraná.
O ginásio de esportes também foi atingido, ficando parcialmente destruído. As causas do incidente ainda estão sendo investigadas pela Polícia Técnica, Funcionários do clube cogitam duas hipóteses: sabotagem ou problemas com fios de telefone, já que na noite anterior um pequeno foco de incêndio surgiu em alguns cabos telefônicos, mas fora controlado rapidamente.
Crise
De acordo com o presidente do Juventus, Marian Kurzoc, o clube contava com 5 mil sócios, mas apenas 800 continuavam pagando as mensalidades. Vindo de um crise financeira, que quase o levara à falência, o Juventus começava a se recuperar. "Agora que tínhamos conseguido pôr as contas em dia, vem esta tragédia", comenta. Segundo Kurzoc, o Juventus não possuía seguro. Ele não quis comentar a hipótese de incêndio criminoso, fundamentada em possíveis rixas com diretorias anteriores. O prejuízo ainda não foi contabilizado.
Ontem, muitos sócios visitaram a sede do clube, durante o dia, para averigüar de perto o estrago. "O Juventus é um marco na imigração que foi agredido. Espero que o governo fique sensibilizado e ajude", diz o psicólogo e sócio do clube, Marcos Traple.
História
Fundada em 1898 por imigrante poloneses, a Sociedade União Juventus destacou-se na área esportiva, folclórica e na promoção de bailes que atraiam um grande público. Nas últimas duas décadas, no entanto, passava por problemas financeiros, o que afugentou muitos dos sócios. "Não freqüentava mais porque não tinha mais nada, estava tudo afundado", conta o comerciante Lauro Popadiuk, 59 anos, sócio há 30 anos.
Outros, no entanto, mantiveram-se firme na paixão ao Juventus, como é o caso do advogado José Cadilhe de Oliveira, 83 anos. Cadilhe não é descendente de poloneses, mesmo assim aprendeu a apreciar a comida e a cantar as canções típicas. "Eu sempre brinco que meu nome é Cadilhoski Oliveirosk", diz Cadilhe, em referência aos sobrenomes poloneses. Sócio desde 1944, foi diretor, conselheiro e hoje é sócio benemérito. Um dos mais antigos sócios vivo do clube, Cadilhe conta que, quando soube da notícia do incêndio, chorou. "Desceram algumas lágrimas no rosto", afirma.



