Histórias de crimes mirabolantes deixaram de ser apenas contos que fazem com que amigos fiquem apreensivos em acampamentos e conversas de bar. Os recursos da internet e a crença popular têm feito com que elas se propaguem por meio de e-mails e, rapidamente, tornem-se lendas urbanas na boca do povo. "Todo mundo já acreditou em alguma mensagem desse tipo e acabou passando para frente. Faz parte de uma mística tentar solucionar esses mistérios", opina o professor do curso de Jornalismo do UnicenP, Fábio Marchioro, que há quase dez anos tem a internet como ferramenta de trabalho.
Entre os casos que ficaram conhecidos no mundo virtual nos últimos tempos está a história da criança que teria sido picada por uma cobra em uma piscina de bolinhas. Há também o drama supostamente vivido por uma moça que, depois de ficar inconsciente em uma festa, acorda dentro de uma banheira cheia de gelo e sem os rins. "Não dá para acreditar em tudo o que aparece na internet", alerta o professor.
Para Marchioro, muitas pessoas estão equivocadas ao pensar que têm privacidade quando navegam na internet. Esse é um fator que contribui para que as "lendas" se propaguem no mundo virtual. "Muitos pensam que não estão fazendo nada de errado e que enviando as mensagens para outras pessoas estarão ajudando a resolver um mistério. Hoje, quem acaba repassando esses e-mails faz por má-fé, brincadeira ou inocência", diz o professor.
Segundo o especialista em segurança digital Wanderson Castilho, a maioria dos internautas que encaminham esses e-mails para seus contatos tem um perfil específico: são usuários que têm a internet como uma novidade. "Eles acreditam que tudo o que recebem na internet é verdade, mas sabemos que não é bem assim", avalia Castilho. Outro determinante é a facilidade para se acessar e enviar e-mails, o que faz com que grande número de pessoas tome conhecimento de um fato, verdadeiro ou não, em curto intervalo de tempo.
A empresária Gerda Silva, 36 anos, costuma encaminhar mensagens para amigos como forma de alerta. "Dependendo da fonte, se é um amigo seguro, eu encaminho", explica. "São formas de se precaver. Existe tanta forma de golpe que é preciso ficar alerta. A gente pode estar ajudando alguém", considera.
Casos
A reportagem da Gazeta do Povo selecionou algumas mensagens da área de segurança pública e as encaminhou para a análise dos responsáveis por cinco delegacias especializadas de Curitiba: Crimes contra a Mulher, Furtos e Roubos, Grupo Tigre, Furtos e Roubos de Veículos e Antitóxicos. Algumas situações são classificadas como alarmantes, outras chegam a deixar os delegados em dúvida sobre a possibilidade de serem verdadeiras.
"Eu estaria sendo leviano se afirmasse que é mentira, mas dá a impressão de não ser verdade", comenta o delegado Riad Farhat, do grupo anti-seqüestro Tigre, sobre um dos e-mails avaliados.
O conteúdo das histórias contadas na internet faz com que as opiniões dos delegados se dividam. "Na internet você encontra os maiores absurdos. Essas histórias ou são fantasia ou são alugação. Quem cria pensa: Vou espalhar um boato para ver se vai ter repercussão", avalia o titular da Delegacia de Furtos e Roubos de Veículos, Itiro Hashitani. "É sempre interessante enviar essas mensagens para alertar as pessoas", rebate o delegado Rubens Recalcatti, da Delegacia de Furtos e Roubos. "A internet tem duas faces. Em muitos casos ajuda e em outros acaba levando as pessoas ao engano. Eu corto correntes e não repasso para ninguém", conta a delegada Darli Rafael, da Delegacia da Mulher.
Interatividade:
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