
O lixão da Lamenha Pequena, onde Curitiba depositou seus resíduos sólidos entre 1964 e 1989, segue sob observação e recebendo manutenção da prefeitura da capital. No ano passado, foi aberta licitação com valor máximo de R$ 423.177,14 para a realização de obras nos sistemas de drenagem das águas pluviais, dos acessos internos e do sistema de tratamento de efluentes, além da recuperação do sistema de monitoramento de água subterrânea. Mais de 20 anos após seu encerramento, o espaço, oficialmente chamado de aterro sanitário, continua criando passivos ambientais, como a geração de gás e chorume (líquido resultante da decomposição do lixo).
"Um aterro sanitário não tem só o custo de operá-lo e implantá-lo. Ele precisa ser observado por muito tempo, cerca de 50 anos", explica o engenheiro ambiental Carlos Mello Garcias, professor do mestrado em Gestão Urbana da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Por meio de nota oficial, a prefeitura informa que o local recebe monitoramento permanente. "Na época da desativação, a primeira providência foi o selamento da área com terra e plantio de vegetação e a drenagem, além da construção de duas lagoas de tratamento", diz. Estima-se, ao todo, que a Lamenha Pequena tenha recebido aproximadamente 810 mil metros cúbicos de lixo de Curitiba nos 25 anos de operação.
Para o engenheiro civil Miguel Mansur Aisse, professor do Departamento de Hidráulica e Saneamento da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o termo "aterro sanitário" não pode ser aplicado à Lamenha Pequena. "Não vi seu início, mas sua operação. Era um lixão", diz. "Pelo fato de não terem sido realizados os investimentos necessários à época de sua instalação, a preocupação deve ser permanente", acrescenta.
Caximba
Se o cronograma oficial for mantido, Curitiba terá que se preocupar com novo aterro encerrado a partir de novembro: a Caximba. Não basta, no entanto, apenas colocar um cadeado no portão. Algumas ações são fundamentais para diminuir o passivo ambiental: impermeabilização da cobertura final (de preferência com material nobre, como a argila); plantio de vegetação, a fim de evitar erosão; instalação de equipamentos para monitorar a movimentação da massa interna; e a vigília constante da produção de chorume. Procurada para comentar o fechamento da Caximba, a prefeitura apenas informou que "as obras do Plano de Encerramento estão dentro do cronograma".
Por ter sido mais bem planejado em sua instalação, o aterro oferece vantagens nessa manutenção. "Como foi projetado, recebeu obras necessárias, como a impermeabilização, desde o início", avalia Aisse. Apesar da adequação, o potencial problemático da Caximba é superior ao da Lamenha Pequena em razão do volume de lixo recebido em suas mais de duas décadas de operação. Na década de 1960, quando a Lamenha passou a funcionar, Curitiba tinha cerca de 356 mil habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Dez anos mais tarde, a capital passou para 609 mil pessoas e alcançou 1,3 milhão no fim da década de 1990.
A Caximba, por outro lado, não recebe lixo apenas de Curitiba, pois integra um Consórcio Intermunicipal. Por esse motivo, outros 18 municípios da região metropolitana descarregam seus resíduos no mesmo lugar. De acordo com as estimativas do IBGE, a "Grande Curitiba" atualmente soma quase 3 milhões de habitantes: quase três vezes mais lixo absorvido que na Lamenha Pequena.
"A dimensão do problema é menor na Lamenha", diz Aisse.
De acordo com Garcias, é impossível prever o que pode ocorrer na Caximba. "Nós sabemos de aterros com mais de 50 anos que ainda produzem chorume e gases. Teve gente que encontrou um repolho inteiro em um aterro encerrado há mais de 20 anos", diz. Outra diferença entre os espaços se deve à altura. "O lixo vai se acomodando e podem aparecer rachaduras ou quebrar a tubulação interna. É uma massa muito instável e sensível", diz Garcias.





