Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Internet

Justiça brasileira é líder em pedidos de remoção de conteúdo do Google

Site de busca foi alvo de 640 mandados judiciais no segundo semestre de 2012. Quase o triplo do registrado no mesmo período nos EUA

 |

Na linguagem da internet, o "Erro 404" ocorre quando o usuário não consegue acessar uma página porque seu conteúdo foi apagado ou bloqueado. A frustração com a informação perdida é também um lembrete de que a grande rede, embora jovem, tem uma memória volátil. E, cada vez mais, a Justiça tem sido a responsável pelo esquecimento seletivo – um fenômeno no qual o Brasil ocupa um papel de destaque.

INFOGRÁFICO: Confira o número de ordens judiciais emitidas pelo Brasil para remoção de conteúdos da internet

Dados do Google colocam o país como o líder em mandados judiciais para a eliminação de resultados de pesquisa. O objetivo dos autores das ações é impedir o acesso a materiais sob acusação de desrespeitar direitos autorais, constituir crimes contra a honra ou violar a lei eleitoral.

Somente no segundo semestre do ano passado, o Google recebeu 640 mandados para remoção total ou parcial de conteúdo, mais que o dobro do registrado em seu país-sede, os Estados Unidos. O pico foi durante o período eleitoral, quando partidos costumam travar uma batalha de liminares, porém representa um crescimento tendencial permanente. O Google acaba sendo o alvo preferencial das ações por ser o principal caminho para se chegar ao conteúdo. Fora da pesquisa, a informação contestada acaba perdida em meio às bilhões de páginas criadas diariamente na rede. É a alternativa diante da dificuldade legal de acionar hospedeiros de conteúdo semianônimos, muitos deles estrangeiros.

Defesa

Recentemente, o Superior Tribunal de Justiça determinou que o Google deveria retirar páginas assim que fosse comunicado extra-judicialmente, pelos canais próprios do site. A empresa afirma ter dificuldades técnicas para analisar caso a caso. "Os mecanismos para reportar abuso são tão lentos que os prejudicados acabam recorrendo ao Judiciário", afirma Leandro Bissoli, advogado especialista em Direito Digital e sócio do escritório Patricia Peck Pinheiro Advogados.

Nas ações, o Google se defende argumentando que o buscador não hospeda as páginas, apenas indica o endereço. Estaria, portanto, isento de responsabilidade civil ao menos até a comunicação judicial do possível crime. A justificativa é aceita pela maioria dos juízes, que ainda assim determinam a retirada da pesquisa para preservar o direito individual do autor da ação. A empresa, no entanto, nem sempre cumpre a determinação: apenas 20% dos mandados são acatados no Brasil, ante 45% nos Estados Unidos.

Três anos atrás, as solicitações efetivadas beiravam o 100% nos dois países. Desde então, o Google se tornou mais relutante, temeroso por estimular uma cultura de censura prévia, principalmente em países com sistemas judiciários menos institucionalizados.

Dano moral embasa ações no Judiciário

Em 2010, a apresentadora Xuxa Meneghel conseguiu na Justiça que o Google deixasse de oferecer resultados para pesquisas sobre determinados trabalhos do início da carreira da artista. Esse é um caso exemplar no Brasil, em que autor consegue proteção contra conteúdos existentes e que ainda podem vir a ser criados. Nestes casos, a decisão é cumprida com a programação de algoritmos que detectam a procura pela informação contestada. No processo de Xuxa, a defesa pediu que a palavra "pedófilo" deixasse de ser relacionada à apresentadora.

Os grandes portais mantêm bloqueios prévios para impedir a publicação de pornografia, xingamentos e conteúdos com direito autoral. O Facebook, com 900 milhões de usuários, recebe milhares de solicitações de dados de usuários para investigação de crimes ocorridos dentro ou fora da internet (o Brasil é o sétimo em solicitações) e tem se destacado pela aplicação de tecnologias de filtragem que impeçam a publicação de conteúdos potencialmente danosos.

Sua ferramenta antipornografia, por exemplo, conta o número de pixels (quadradinhos de cor que formam uma imagem no computador) com a cor da pele. A partir de certa quantidade, pressupõe que a pessoa na foto está nua. Essa ferramenta já bloqueou uma reportagem de um grande jornal sobre um protesto na Câmara Municipal de Porto Alegre, em que manifestantes tiraram fotos nus, e um artigo de revista sobre revistas íntimas em mulheres e crianças em presídios que continha uma ilustração alusiva ao tema.

"Há como limitar algumas ações, mas é impossível remover um conteúdo de forma definitiva em um ambiente com bilhões de novas páginas a cada dia", alerta Celso Kaestner, professor do Departamento de Informática da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). "Não existe solução milagrosa."

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.