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Dia do Índio

Línguas nativas perto da extinção

Projetos tentam catalogar e salvar os idiomas sobreviventes, mas desaparecimento é mais rápido

Pedro Alves, professor na reserva Ocoy: escola na aldeia ajuda a preservar a cultura | Christian Rizzi/Gazeta do Povo
Pedro Alves, professor na reserva Ocoy: escola na aldeia ajuda a preservar a cultura (Foto: Christian Rizzi/Gazeta do Povo)

Foz do Iguaçu - Em 500 anos, cerca de mil línguas indígenas faladas no Brasil simplesmente desapareceram. A extinção média de dois idiomas nativos por ano foi mais acentuada nos tempos da colonização e do Império, com resquícios na República, já na década de 70, quando atingiu etnias de Rondônia e do Mato Grosso. Apesar da desaceleração, pelo menos 20 das quase 170 línguas sobreviventes estão em perigo. No Paraná, a língua xetá, original da última aldeia descoberta no estado, nos anos 40, é uma das mais ameaçadas.

Neste Dia do Índio, a alarmante constatação: a devastação marcou todo o território nacional, com maior intensidade nas regiões Nordeste, Sudeste e Sul do Brasil. As línguas foram quase todas extintas, sem deixar vestígios. Projetos de universidades, entidades de proteção da causa indígena e do governo tentam amenizar o estrago. Porém, o esforço de identificar, comparar, normatizar, catalogar e salvar os idiomas nativos corre na velocidade contrária à do processo de extinção.

Das línguas sobreviventes, só 15% delas têm mais de mil falantes e 25% reúnem no máximo 50 praticantes. Desde 2001, morreram os últimos falantes de cinco delas. Hoje, os xetás se reduzem a sete integrantes puros, sem mistura com outras etnias. São menos de 100 as pessoas no país com sangue xetá, espalhados pelo Norte do Paraná, em Santa Catarina e São Paulo. Apenas dois descendentes, em idade avançada, ainda teriam o domínio da língua.

As principais causas do extermínio linguístico seriam as alterações nas tradições culturais indígenas e a falta de transmissão entre as gerações. A proximidade dos meios urbanos afasta os jovens dos costumes originais e uma alternativa para frear a aculturação seria implantar mais escolas indígenas nas aldeias, iniciativa que ganhou espaço na Região Oeste, onde há três aldeias avá-guarani, perto do reservatório de Itaipu. Na quarta-feira, a aldeia Tekohá Añetete, em Diamante d’Oeste, ganhou uma escola estadual em sede própria.

Sessenta alunos da aldeia já vinham tendo aulas da educação infantil ao ensino fundamental em regime bilíngue português-guarani, desde agosto, no prédio do Centro Cultural Ambiental. Com capacidade para 350 alunos, a unidade, a exemplo da aldeia Ocoy, em São Miguel do Iguaçu, adota o currículo definido pelo Ministério da Educação associado à cultura e tradição guarani. "A educação de qualidade dos índios é fundamental para preservarmos nossa memória e para a sociedade aprender a respeitar nosso povo", diz o cacique João Alves.

Na região de Curitiba, missionários da Primeira Igreja Batista fazem um trabalho semelhante de auxílio à manutenção dos costumes indígenas. Índios da tribo Araça-i, na reserva de preservação ambiental da Sanepar, em Piraquara, também têm uma escola bilíngue. "Entre eles, o idioma oficial é o guarani. Mas, a necessidade de se comunicar além dos limites da aldeia fez com que muitos quisessem aprender o português", diz o seminarista Rodrigo Florêncio. Além das crianças em processo de alfabetização, adultos estão tendo aula.

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