
"Observe sempre o seguinte critério: ao colocar o papel na máquina, acerte-o juntando suas extremidades. Para isso, pressione a alavanca soltadora do rolo. Antes de começar, marque as margens do papel, através dos marginadores", explica o manual de método de datilografia da Olivetti, antiga fabricante do equipamento.E era assim mesmo: o preparo, que pode até cansar os leitores mais jovens ao pensar no passo a passo da colocação da folha de papel, era o início do trabalho do datilógrafo.
A prática pode ser considerada anacrônica em tempos de aparatos cada vez mais sofisticados, mas ainda é possível encontrar locais que trabalham no restauro dos equipamentos e que lembrem saudosamente da atividade. "Na década de 70, uma máquina IBM valia o equivalente a um Fusca ou um bom carro usado", conta o dono da Assistência Técnica Condez, Carlos Alberto Condez, 65 anos. Ele divide o conserto das máquinas com o filho Marcelo, 40 anos. "A gente vendia e consertava quase 25 máquinas por dia." Hoje, quem se interessa pela compra de máquina manual a encontra em lojas de assistência técnica, que nem sempre têm muitas opções. "A manual não passa de R$ 200. A elétrica chega a R$ 400 e a eletrônica a R$ 700", diz Condez.
Saber datilografar era ainda um diferencial no currículo. O empresário Jorge Sabongi, 50 anos, conseguiu o primeiro emprego aos 14 anos graças à rapidez com que batia à máquina. A família Sabongi tinha uma escola que ensinava o método, a Visconde de Barbacena, que funcionou por 20 anos no bairro da Saúde e no Parque Santo Antônio, na capital paulista. "Eu tinha facilidade e observava meu pai, que fazia 60 palavras por minuto", diz. "Tinha competição para ver quem datilografava mais rápido. Meu pai sempre ganhava."
A região central de São Paulo, perto da Rua do Carmo, era referência na assistência técnica. "Éramos quase 150 pessoas comprando, consertando e vendendo. Hoje tem meia dúzia", afirma Condez. A chegada da máquina com corretivo, grande novidade da IBM, marcou. "Foi a alegria das secretárias", diz Condez. Apesar da queda de clientes, ele acredita que a máquina manual vai resistir ao tempo. "Muitas empresas ainda têm máquinas. As manuais são baratas e não gastam energia."
Tradição
Na esquina das Ruas José Bonifácio e Líbero Badaró existe uma vitrine com vários equipamentos. A Assistência Técnica Dimpa, que, entre outros serviços, conserta os equipamentos, está sob o comando do sócio Lino Martins, 71 anos. "As décadas de 70 e 80 foram o auge, 80% da procura eram de pessoas que queriam comprar ou consertar máquinas manuais", diz. Há 52 anos ali, ele lembra que vendia 200 máquinas no Natal. "A turma queria manual. Eram pessoas de terno e gravata."



