
Os números divergem, mas seja qual for o tamanho da quebra, o fato é que o Paraná não vai colher neste verão uma safra recorde de feijão, conforme previsão inicial. E o consumidor pode preparar o bolso, pois a quebra na safra do maior produtor nacional do grão pode comprometer o abastecimento do mercado em 2009 e elevar os preços do produto dentro e fora da porteira. Levantamento preliminar do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria Estadual da Agricultura e do Abastecimento (Seab), concluído no final da semana passada, indica quebra de 4% na produção estadual do grão. No campo, contudo, os relatos são mais pessimistas. Alguns produtores afirmam já ter perdido até 100% da lavoura por causa da seca.
Leia tudo sobre agronegócios no canal Caminhos do Campo
Em agosto, quando teve início o plantio da safra das águas, a Seab calculava que o estado tinha potencial para colher até 608,7 mil toneladas de feijão. Mas São Pedro não ajudou. A falta de umidade entre agosto e setembro prejudicou a implementação e germinação das lavouras em algumas regiões do estado. De outubro até meados de novembro o excesso de chuva atrapalhou o desenvolvimento das plantas no Sul paranaense, região que é responsável por 70% da produção estadual. "Com todos esses fatores adversos, as lavouras não se desenvolveram adequadamente. As plantas ficaram com baixo porte e sistema radicular superficial. Agora, o déficit hídrico na floração provoca abortamentos florais e causa danos irreversíveis no potencial produtivo. Se as chuvas não retornarem, os prejuízos aumentam a cada dia", afirma o Deral em relatório.
Atualmente, a produção paranaense de feijão das águas está estimada em 581,9 mil toneladas. Novo levantamento para avaliar as perdas por estiagem deve ser divulgado na semana que vem. "Vai haver quebra e certamente será maior que os 4% previstos atualmente. Mas ainda não dá para quantificar com precisão os prejuízos", antecipa o agrônomo do Deral, Otmar Hubner.
Paulo Camargo, agrônomo da Cooperativa Agroindustrial Bom Jesus, com sede na Lapa (Centro-Sul), conta que, após quase um mês sem chuva, agricultores do município que plantaram mais cedo perderam toda a sua produção. Nas áreas semeadas até 10 de outubro, relata, a quebra já chega a até 60%. Nas lavouras plantadas mais tarde as perdas são menores e, em alguns casos, até reversíveis, afirma o agrônomo.
Os porcentuais variam entre as regiões. Em Castro (Campos Gerais), por exemplo, as primeiras lavouras colhidas têm rendido entre 30% e 50% a menos que o esperado. Em Prudentópolis (Campos Gerais), as perdas chegam a 80 % nas lavouras que estão enchendo grãos e 100% nas áreas em floração.
"A quebra pegou o mercado no contrapé", avalia Marcelo Lüders, analista da Correpar e presidente do Instituto Brasileiro do Feijão (Ibrafe). Segundo ele, o Paraná alardeou que colheria uma supersafra e outros estados produtores, como Minas Gerais, acabaram não plantando tanto quanto podiam ou gostariam. Agora, poderemos ter dificuldades de abastecimento em 2009 e o preço, que vinha depreciado, vai subir", alerta.
De acordo com Lüders, a redução da oferta já está sendo sentida no mercado paulista. Segundo ele, a tendência é que a pressão compradora continue até a metade da semana que vem. Depois disso, as festas de fim de ano tendem a esfriar as negociações. "O comprador se retira do mercado no fim do ano, mas o produtor continua colhendo. Por isso, é possível que 2009 comece com preços pouco mais baixos. Mas as cotações devem voltar a subir já na segunda quinzena de janeiro", prevê.
A alta das cotações, se confirmada, deve ser prontamente repassada ao consumidor porque os supermercados não têm estoques de feijão, alerta o analista. Nesta época do ano, eles costumam priorizar os produtos de Natal, explica. "Se os preços chegarão aos níveis recordes que alcançaram no início do ano, só o tempo dirá, mas a tendência para o início de 2009 é de mercado em alta." Em janeiro de 2008, a cotação da saca do feijão chegou a R$ 300 ao produtor. Na gôndola dos supermercados, os consumidores chegaram a pagar até R$ 9 o quilo.
O Brasil consome anualmente 3,65 milhões de toneladas de feijão. Em três safras, o Paraná oferece ao país um quarto desse volume. Nesta temporada 2008/09, o Brasil deve, conforme a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), colher 3,7 milhões de toneladas de feijão, 1,5 milhão (41%) na safra de verão. (LG)



