Andar nas ruas pode ser mais perigoso do que se imagina: a qualquer momento, um pesado bloco de granito pode cair do alto de um prédio e causar sérios estragos. Parece exagero, mas, segundo a Comissão de Segurança de Edificações e Imóveis (Cosedi), órgão da prefeitura de Curitiba, o risco é real. Desde junho deste ano, a Cosedi tem registrado pelo menos três casos por semana de materiais que se desprendem de prédios e têm a rua como destino. Tudo por causa das altas variações de temperatura registradas nesta época do ano.
Há duas semanas, o órgão vistoriou um prédio na Avenida Cândido de Abreu, no Centro Cívico, que oferecia sérios riscos à população e aos estudantes de um curso pré-vestibular que fica ao lado. Os técnicos da prefeitura encontraram pedras utilizadas no revestimento do prédio nos terrenos vizinhos e dentro da agência bancária que funciona no andar térreo do edifício. A direção do colégio evacuou as salas e transferiu as aulas para outro local, até a situação ser controlada.
Segundo o engenheiro Hermes Peyerl, coordenador da Cosedi, em casos como este o órgão notifica o proprietário ou o responsável pela edificação, que deve tomar medidas paliativas em um ou no máximo dois dias. "Exigimos a colocação de telas, anteparos e bandejões de madeira", diz Peyerl. "Um acidente causado por esse tipo de material pode ser muito grave, já que são revestimentos pesados. Nesse caso do Centro Cívico, os frisos que estavam no alto do prédio poderiam atingir salas cheias de alunos."
Depois de tomarem as primeiras medidas de segurança, os responsáveis pelas edificações são notificados para corrigir definitivamente o problema. Neste caso, segundo Hermes Peyerl, não há um prazo específico, mas a multa, em caso de descumprimento da determinação, pode variar de R$ 100 a R$ 5 mil. A lei que estabelece os deveres e as penalidades em relação à segurança das edificações é o Código de Posturas de Curitiba (Lei Municipal 11.095, de 2004).
De acordo com o engenheiro, os materiais que podem se desprender são os mais variados. "São azulejos, peças cerâmicas, pedras colocadas nas fachadas dos edifícios, esquadrias, pedaços de granito e mármore. Acertando alguém, um material desses pode até matar", comenta. "A situação piorou com o clima seco, mas esses casos são comuns, corriqueiros. Em outras épocas, registramos pelo menos um caso por semana." A Cosedi pode ser acionada pelo telefone 156, da prefeitura de Curitiba.
Frio e calor
As variações de temperatura são as grandes responsáveis pelos materiais que se desprendem. "Qualquer material sofre com as variações de temperatura; ele se contrai quando está frio e se dilata com o calor", explica o professor Mauro Lacerda Santos Filho, do Setor de Tecnologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR). "Quando isso acontece todo dia, depois de certo tempo, a tendência é fragilizar a estrutura. A argamassa perde a capacidade de segurar a placas de revestimento. Imagine um material que fica exposto a 1°C durante a noite e a 25°C durante o dia, com sol."
Como nas madrugadas de inverno a temperatura pode atingir 0°C, outro problema é a umidade: a água se infiltra nas fissuras e congela, ocupando mais espaço. Este processo "vai minando" a obra, seja ela de grande porte ou apenas uma pastilha presa no alto de um prédio. "O ideal é criar juntas (espaços) nos revestimentos, mas isso não se faz muito no Brasil", afirma o professor Santos Filho.



