
Nas declarações de organizadores e nas fotografias da 16.ª Parada Gay de São Paulo, ocorrida no último domingo, a impressão é de que o evento contou com quantidade de pessoas semelhante às estimativas de público das edições anteriores. Uma nova ferramenta de medição do Datafolha, porém, transformou os milhões de participantes em milhares e causou uma saia justa para a Associação da Parada do Orgulho GLBT (ABOGLBT), promotora do evento.
Segundo dados levantados pelo instituto de pesquisa, 270 mil pessoas participaram da Parada Gay deste ano. Anteontem, um representante da ABOGLBT que estava sobre um trio elétrico chegou a divulgar que o público tinha passado da casa dos 4 milhões, mesmo número informado no ano passado. Em 2007, a passeata paulista foi considerada a maior do mundo pelo Guinness, o livro dos recordes.
Porém, de acordo com o diretor do Datafolha, Mauro Paulino, essa estimativa de público nunca foi verdadeira. "Pela metodologia empregada neste ano e pelas fotos de eventos anteriores, o público da Parada Gay nunca atingiu a casa do primeiro milhão", afirma.
Para chegar aos 270 mil participantes, 35 pesquisadores do Datafolha percorreram toda a extensão da Avenida Paulista e da Rua da Consolação, vias onde a Parada Gay é realizada. No percurso, eles contaram quantas pessoas havia por metro quadrado. Em seguida, voltaram perguntando aos participantes há quanto tempo eles estavam no evento.
Essa metodologia, segundo o instituto, é única no mundo. Para estimar o público, outros países levam em conta, por exemplo, a quantidade de lixo gerada ou a concentração de pessoas ao longo da parada. "Mas essas ferramentas não levam em consideração o público flutuante. A partir das nossas amostragens, conseguimos saber quantos entram, saem e quantos ficam até o final do evento", explica Paulino.
A aferição foi criticada pela ABOGLBT, que pretende divulgar um número cruzado com dados de hotelaria e do metrô para desmentir os números do instituto de pesquisa. "O Datafolha não considerou as imediações da Parada Gay e ainda levou em consideração menos horas de evento, pois tivemos público até a meia-noite", disse a associação via assessoria de imprensa.
Confiabilidade
Apesar das críticas da associação, especialistas veem com bons olhos a metodologia do Datafolha. "Os organizadores querem inflar esse número, mas a metodologia do Datafolha se mostra a mais confiável porque pega amostragens de quem entrou e saiu", diz Anselmo Chaves Neto, do Departamento de Estatística da Universidade Federal do Paraná.
Opinião semelhante tem José Dutra Vieira Sobrinho, vice-presidente da Ordem dos Economistas do Brasil. "Essa pesquisa restabelece a verdade, porque sempre foi um absurdo a Parada Gay registrar mais público que a posse do Obama [presidente norte-americano, que em sua posse reuniu cerca de 2 milhões]", defende.



