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Caridade

Memória em temporada de gripe

Há 90 anos, Lar dos Meninos de São Luiz passou a acolher garotos pobres. Em 1957, instituição se muda para o Água Verde, marcando a vida do bairro com seus dramas, seu coral e uma fábrica de cabides

Voluntários do Lar dos Meninos de São Luiz na sacada da casa | Priscila Foroni/Gazeta do Povo
Voluntários do Lar dos Meninos de São Luiz na sacada da casa (Foto: Priscila Foroni/Gazeta do Povo)
Retrato antigo: meninos do lar com torre da igreja ao fundo |

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Retrato antigo: meninos do lar com torre da igreja ao fundo

Livro de registros: histórias dos meninos pobres de Curitiba |

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Livro de registros: histórias dos meninos pobres de Curitiba

O velho Água Verde tem seus marcos de direito – o cemitério, a capelinha da República Argentina, a Igreja do Sagrado Coração de Jesus – eternamente em construção –, a sede do Ypiranga F.C. e a Arena do Atlético, dentro em breve território da Fifa. Mas qualquer roteiro água-verdeano que se preze tem de incluir outra marca registrada – o Lar dos Meninos de São Luiz, ex-abrigo fundado em 1919 para receber os órfãos da gripe espanhola, epidemia que matou 30 milhões no mundo, 14 mil no Rio de Janeiro.

A peste se tornou um dos capítulos do século 20, ao lado das duas guerras mundiais, da conquista da Lua e dos requebros de Elvis Presley. Apenas em novembro de 1918, quanto Curitiba tinha 80 mil habitantes, cerca de 300 pessoas morreram em decorrência do vírus influenza. Como registra o livro O Mez da Grippe, de Valêncio Xavier, em outubro daquele mesmo ano as manchetes de jornal apontavam 24 mortos por dia na capital, aumentando a oferta de vagas para cocheiros de funerária e o pânico na fria e úmida cidade dos banhados.

Por essas e outras, nesses tempos de gripe suína, a instituição – reinstalada em 1957 numa construção sóbria da Rua Bento Viana – ainda mexe com o imaginário do bairro, que durante décadas teve os meninos como vizinhos de porta.

Basta entrevistar um morador antigo para saber: raro quem não tenha um dia sondado pela fresta a movimentação dos internos ou não tenha comprado um cabide de madeira feito por eles – com folga, os melhores da praça. Houve mesmo quem tenha desenvolvido laços com os garotos, embora sejam desconhecidos casos de adoção. A explicação é simples: os meninos do São Luiz eram pobres, mas nem sempre órfãos. Muitos, passada a pior fase de penúria, voltavam para a família.

É uma história a ser contada. Parte do trabalho já começou a ser feita por voluntários – como o economista Alceu Pieckler, a professora Aglair Bochnia e um dos bastiões da educação no Paraná, Véspero Mendes, para citar três entusiastas. O interesse pela formação do lar é compreensível. Não há curiosidade que resista aos livros de ingresso – grossos volumes povoados de fotos em preto e branco. Ali estão registrados a origem dos moradores e, com sorte, a pista para reencontrá-los.

Tanto quanto um testemunho de época, os documentos do São Luiz fornecem munição para entender a situação da infância abandonada nos anos que precederam o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), aprovado em 1991. "Eram tempos muito diferentes", pontua a atual diretora, Iolanda de Souza, 59 anos, religiosa da congregação de São José de Chambery, instituto que se mantém à frente do lar desde a fundação.

De fato. Os tomos do passado remetem mais a Charles Dickens e a Victor Hugo do que ao cenário atual, em que a juventude está enredada no tráfico e na violência urbana. A religiosa atesta, inclusive, que entre as antigas diretoras pouco se falava da delinquência, embora fosse uma possibilidade. Não se tem um número exato, mas em 90 anos passaram pela casa pelo menos 13 mil internos e semi-internos.

A irmã Leonilda Scroziatto, 83 anos, foi mandada para o Lar dos Meninos de São Luiz em 1973. Tornou-se patrimônio do Água Verde tanto quanto a obra em que atua. Não raro, é para revê-la que muitos dos antigos hóspedes batem na porta. Ela não esconde: "Tenho saudade dos tempos do internato", diz, enquanto descreve um rosário de lembranças. "O Joaquim: saiu daqui casado. O Levi se ordenou padre. O Odilon se formou dentista e o Duílio trabalha no Tribunal de Contas. Teve um que roubou uma bicicleta, mas não era um marginal."

Citar os ex-moradores que "deram certo" é questão de honra para as freiras. Entre os mais lembrados está o ex-deputado Erondy Silvério, morto em 2005. Em seus discursos políticos, a partir da década de 50, não deixava de citar que "comeu o pão da caridade pública", numa alusão ao São Luiz, do qual se tornou benfeitor.

O aposentado da Receita Federal Gottlann Ventzke Habith, 59 anos, chegou ao Lar em 1954, ainda criança, depois da morte do pai, vítima de tuberculose. Considera-se um homem de sorte: ganhou bolsa de estudos no Colégio Medianeira e chegou a fazer faculdade. Suas recordações fariam reféns durante uma tarde inteira. "Não dá para comparar com os dias de hoje. Naquele tempo, o problema era a miséria. E a miséria às vezes atingia o Lar", conta.

Gottlann se refere às despensas vazias, à falta de agasalho. Andou muito de pé no chão, tomou sopa com catarro e teve de aprender noções de higiene na marra. Pagou castigos a pão e água. Há dez anos, quando se aposentou, muitas dessas lembranças ainda lhe doíam. Fez o que achava justo – deixou-as para trás e passou a dar aulas de informática para as 150 crianças que hoje fazem contraturno no São Luiz. "Sou o que sou graças a esse lugar. Lucrei. Devo tudo ao Lar."

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Serviço

Missa dos 90 anos do Lar dos Meninos de São Luiz. Hoje, às 18 horas, no Santuário do Sagrado Coração de Jesus (Rua Bento Viana com Avenida Água Verde).

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