
Rio de Janeiro - A tragédia que atingiu a região serrana do Rio de Janeiro ganhou proporções ainda mais dramáticas ontem: chegou a 501 o número de mortes causadas pela chuva que atinge a região desde a madrugada de terça-feira. As mortes registradas em cinco municípios Teresópolis, Nova Friburgo, Petrópolis, Sumidouro e São José do Vale do Rio Preto foram causadas por deslizamentos de terra, desabamentos de imóveis e enchentes. Há centenas de corpos soterrados, além de 6.270 desabrigados e 8.320 desalojados.
O temporal que atingiu a região serrana do Rio nos últimos dias já é o maior desastre natural no país envolvendo chuvas. O número de mortes ultrapassou as que foram registradas no município de Caraguatatuba, no litoral norte de São Paulo, em março de 1967. Na ocasião, foram contabilizadas 436 mortes em decorrência de fortes tempestades e deslizamentos de terra -condições semelhantes às das cidades no Rio nesta semana.
Nova Friburgo amanheceu ontem com o cenário de caos: ruas cobertas de lama, colchões e móveis inutilizados jogados nas calçadas e comércio fechado, incluindo os dois principais supermercados. Dezenas de produtos contaminados, descartados pelas farmácias, eram disputados nas ruas ontem. Até o fim da tarde, os moradores estavam sem água, telefone fixo e sinal de telefone celular.
No Hospital Raul Sertã, o único do município, a capacidade de atendimento foi reduzida depois que o ambulatório, no primeiro andar do edifício, foi inundado. "A água subiu muito rápido. Tivemos que subir os pacientes para o segundo andar e perdemos todo o setor em que atendemos as emergências", disse o médico Luís Fernando Azevedo. "Aí, foram chegando os traumas. Imediatamente foi aberto o centro cirúrgico, para atender às fraturas graves."
Um necrotério foi improvisado no ginásio do Instituto de Educação do município. Até o final da tarde, caixões de todos os tamanhos eram empilhados perto e os corpos eram enfileirados dos cantos para o centro da quadra, à medida em que chegavam em carrinhos de mão.
Voltou a chover no fim da tarde, o que levou a Defesa Civil a alertar para o risco de novos deslizamentos e suspender buscas. Dois dos três bombeiros que estavam desaparecidos desde o início da busca tiveram seus corpos retirados ontem. No momento do resgate, quando os corpos eram levados, houve aplausos.
Em Teresópolis, o Instituto Médico-Legal, que tem capacidade para seis corpos e é estruturado para receber de 15 a 20 por mês, entrou em colapso com a chegada de 175 cadáveres até as 18 horas de ontem. Os técnicos adotaram o reconhecimento por meio de fotografias. As fotos dos rostos são mostradas pelos peritos a quem busca informações e só entram no prédio os parentes que já reconheceram vítimas.
A prefeitura comprou um contêiner frigorífico para abrigar os mortos, que durante a madrugada vinham sendo mantidos em um galpão em frente à delegacia, onde as famílias faziam o reconhecimento. Para agilizar a liberação dos corpos, os procedimentos foram simplificados e 180 covas rasas abertas no cemitério da cidade. Com autorização judicial, os bombeiros instalaram holofotes no cemitério, para que os sepultamentos ocorram durante a noite.
No bairro Campo Grande, um dos mais atingidos, enquanto voluntários recolhiam documentos e fotos, corpos eram retirados e colocados em sacos pretos. Primeiro, ficavam acomodados ao lado das rochas gigantes que destruíram tudo no caminho. Depois seguiam para um campo de futebol um quilômetro ladeira abaixo.
Em São José do Vale do Rio Preto, as consequências da chuva ainda são uma incógnita. Pelo menos 60 casas foram destruídas. O município permanece isolado com a BR-116, a principal via de acesso, interditada. Os dois lados do município estão isolados, pois uma ponte foi levada pelas águas e a outra teve a estrutura comprometida. A cidade está sem energia e sem fornecimento de água. Não há combustível disponível. Dois postos de gasolina foram destruídos e o único que restou abastece apenas os carros oficiais.
Rodovias
O Departamento de Estradas de Rodagem (DER-RJ) intensificou os trabalhos para liberar e desobstruir as estradas localizadas na região serrana. A previsão é que as rodovias atingidas estarão liberadas até amanhã, caso as condições climáticas favoreçam o andamento dos trabalhos. Pelo menos oito rodovias estaduais foram atingidas, além da BR-116.
O Ministério da Saúde anunciou o repasse de R$ 8,7 milhões para ampliar a assistência hospitalar. O ministério vai enviar 350 pessoas para as cidades atingidas: serão 50 voluntários dos seis hospitais federais e 300 profissionais (médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem). Ontem, o primeiro grupo de 45 homens da Força Nacional de Segurança Pública, do Ministério da Justiça, chegou às cidades atingidas. Ao todo, 225 homens (15 peritos, 80 bombeiros e 130 policiais) vão auxiliar nos resgates e na identificação dos corpos.





