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Pac feminino

Mulheres com moradia e excesso de contas a pagar

As guerreiras nascidas do PAC em Curitiba contam suas histórias

Nice Maria Michalus, na casa em que vive há um mês na Moradias Arroio, CIC: ela responde por quatro dos cinco filhos com salário de diarista | Daniel Castellano/Gazeta do Povo
Nice Maria Michalus, na casa em que vive há um mês na Moradias Arroio, CIC: ela responde por quatro dos cinco filhos com salário de diarista (Foto: Daniel Castellano/Gazeta do Povo)

Os programas da Cohab em parceria com o Minha Casa, Minha Vida já reassentaram 2.538 famílias, algo próximo de 12,5 mil pessoas. Esse êxodo das zonas favelizadas para os conjuntinhos, é claro, está mudando a geografia das periferias, em especial a CIC, Cajuru e o Tatuquara, áreas para onde estão sendo encaminhados a maior parte dos investimentos.

Circular nesses conjuntos é se deparar com uma espécie de Curitiba brotada do chão. Ali, rondam os fantasmas das velhas culturas, trazidas de algumas das 254 ocupações da cidade, onde vivem nada menos do que 207 mil pessoas. Ao mesmo tempo, esses pequenos bairros de reassentados que surgem aqui e ali se firmam como laboratórios da cidade possível. Na economia e nos costumes.

Perguntar nessas áreas pelas "mulheres titulares", aquelas que pagam sozinhas pela casa, é receber em resposta uma lista de comadres. "Tem a Ariete, a Mãezinha, a Santina...", contou nos dedos uma adolescente do Moradias Laguna, no Tatuquara, onde moram egressos da favela Terra Santa, ali ao lado. De sua lista, destaca a "chefe" que considera "a dona da história mais legal", Elisângela Bianconi, 34 anos, diarista e mãe de três filhos – um de 13, outro de 12 e um de 8 anos.

Elisângela se viu manda-chuva da família meio à força. Casou adolescente com um colega de vila e logo adotou a função de mãe. "Foi de véu, na igreja, mas não deu certo", brinca. Veio o segundo marido e o empobrecimento contínuo, até parar numa ribanceira úmida da Terra Santa. "Comprei meu terreno daquele movimento, o Direito de invasão", conta.

A prisão do companheiro agravou os maus lençóis de Elisângela. Com tudo contra, acabou ganhando transferência para o Moradias Laguna. A prestação da casa é de R$ 130. O sustento vem das faxinas e do Bolsa Família, que lhe repassa R$ 60. Peleja para custear comida e roupa para os pequenos. "Às vezes, me deprimo", admite.

Na casa de Nice Maria Michalus, na Moradias Arroio, perto do Porto Seco da CIC, idem: a alegria da casa própria é proporcional à tormenta das contas. A "chefe" morava na tradicional Vila Leão – no trecho Ferrovila –, Portão. Quase sempre de aluguel. Algumas vezes de favor. E sempre com muitos filhos a criar, cinco no total. Chegou aos 40 anos com um saldo de batalhas digna de uma amazona.

A mulher alta, expressiva e desembaraçada ficou conhecida das assistentes sociais da Cohab. "Venci pela insistência. Sabia que uma estava passando na vila e ia atrás, perguntar da minha casa. Bati o pé". Mudou-se há um mês. Mantém tudo "na pinta", inclusive a caderneta de gastos.

Boa parte do dia do seu dia é na rua, entre creches e casas de família onde trabalha. Mesmo assim, não gostaria de dividir as despesas com um marido. Foram três companheiros. Agora, prefere o "namorido", devidamente informado de que a Cohab de dois quartos e bom terreno, na frente e nos fundos, é dos filhos. "Entendido? Marido vai e vem, né. Filho é para sempre".

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