A pobreza extrema foi o motivo alegado por Denise, hoje com 30 anos, para deixar dois dos quatro filhos para a adoção, ainda na maternidade, em Rio Grande (RS): as meninas Nicole e Jennifer. Ela, que usa nome fictício na reportagem assim como as demais mulheres apresentadas , foi uma das mães ouvidas pela psicóloga Carolina Santos, durante seu trabalho de pesquisa, em 2003.
Denise relata que quando Nicole nasceu, ela e o marido já tinham outros dois filhos. Ela não estava trabalhando e o companheiro vivia de bicos. "A gente tinha perdido a casa, estava morando numa lona colocada num terreno. Não tinha como levar um bebê junto." Um ano depois de dar à luz Nicole, Denise engravidou de Jennifer. "Foi sem querer..." E a história se repetiu: "Tive que deixar a Jennifer para a adoção também".
Mesmo achando que fez o que tinha de ser feito na época, Denise se arrepende. "Eu queria ter ficado com as menininhas. Mas nem roupinha de bebê eu tinha, não tinha nada", conta. "Eu penso todos dias nas meninas que deixei, as carinhas delas não saem da minha cabeça. Rezo para minhas filhas todos os dias, mas acho que elas estão bem com as famílias ricas."
O caso da gaúcha Fátima, 27 anos, é lamentável: ela teve a filha Natália com 16 anos, e também a deixou na maternidade. "Eu era uma criança tendo outra. Não tinha emprego certo, cuidava de uma velhinha que me dava casa, comida e um pouco de dinheiro, mas não o suficiente para sustentar uma criança. Meu namorado fugiu e toda a minha família é pobre, ninguém podia me ajudar", relata.
Mas a decisão custou caro: "O parto foi difícil e eu perdi o útero depois, não posso mais engravidar. Hoje sou casada, meu marido adora criança e eu não tenho mais como lhe dar filhos. Nunca vi a carinha da minha filha, toda vez que eu vejo uma criança de uns 9 anos eu penso que pode ser a minha".
O caso que melhor representa a relação entre a infância da mãe e a tendência a abrir mão dos filhos é o de outra gaúcha, Patrícia, que hoje tem 25 anos. Ela lembra assim do seu tempo de criança: "Foi horrível. Meu pai bebia muito, batia em todos filhos e na minha mãe. Ele abusava de mim e minha mãe deixava ele fazer aquilo. Eu falava para ela e ela me batia na boca. Tudo o que eu queria era sair daquela casa e quando conheci meu marido em uma semana fui morar com ele. Me livrei daquele bêbado".
O problema é que o marido de Patrícia já tinha outros cinco filhos, que a ex-mulher tinha deixado com ele. "Quando a gente se juntou ele disse que não queria mais filhos. Mas eu engravidei. Até achei que ele ia mudar de idéia quando visse que eu estava de barriga, mas não. Ele até me bateu quando eu estava de barrigão, disse para eu me livrar da criança, voltar do hospital sem ela", conta. E assim Patrícia acabou deixando o filho Pedro Henrique para adoção. Mas a dor a acompanha até hoje: "Eu choro de noite quando eu deito, queria muito o Pedrinho comigo".



