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Segurança

Nem herói, nem depressivo. Só policial

Dois mitos perseguem os policiais, como eles aos bandidos. São tidos como truculentos e ignorantes. Não só isso. São vistos todos os dias por todos, mas só são lembrados na desgraça. Carregam na farda a culpa de um Estado omisso. Vivem nos extremos, do complexo de super-homem à depressão da síndrome de burn-out, o que faz da Polícia Militar uma corporação multifacetada, por vezes de difícil compreensão aos olhos da população. Em sondagem da Paraná Pesquisas, feita a pedido da Gazeta do Povo, 35% dos curitibanos dizem não confiar nos policiais militares; 34% confiam e 29% ficam no meio termo. Desses, 43% vêem neles o retrato de uma polícia violenta.

Para a PM, nem sempre é justa a leitura que a sociedade faz da corporação, cujo efetivo é muito jovem, bem instruído e cheio de boa vontade. A média não passa dos 26 anos, ponderando a idade dos praças na base e dos oficiais no topo. Três em cada dez têm curso superior e, dos 70% restantes, metade está na faculdade. Antes de sair às ruas, passam pelo Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças (CFAP), onde metade do curso se baseia em fundamentos humanistas. "Se na sociedade os valores éticos e morais são valorizados, na formação militar eles são reforçados ainda mais", diz o subcomandante do CFAP, capitão Ronaldo de Abreu.

Por que, então, a polícia é vista com desconfiança? "Medidas de segurança são antipáticas, são regras que precisam ser aplicadas, mexem no conforto de cada um e exigem das pessoas participação, compreensão e envolvimento", diz o major Douglas Sabatini Dabul. No caso de um estádio de futebol, significam rever conceitos de diversão ligados ao consumo de bebida alcoólica. Se tudo acaba bem, sem brigas, os policiais saem tão anônimos quanto entraram. Mas quando há conflito e a polícia tem de intervir, há uma enxurrada de críticas. Esse é só um dos dissabores da profissão.

Esgotamento

O pastor presbiteriano Gustavo Brandão aprendeu muito sobre a alma dos policiais durante os trabalhos pastorais que desenvolveu com presos. Penaliza-se com as múltiplas angústias dos policiais: a angústia de saber que o bandido conhece sua rotina e de sua família; a angústia de trabalhar com armas obsoletas, ou de conviver lado a lado com algum colega corrupto. Essas desgraças diárias, somadas ao cotidiano de risco, à sobrecarga de trabalho e ao salário apertado, levam o policial à síndrome de burn-out, um estresse crônico e altamente nocivo à saúde física e mental.

Em situação oposta está a síndrome do super-homem, não menos perigosa. Ele se vê primeiro como policial e só depois como cidadão. "Isso acontece porque ele está muito envolvido na atividade de defesa da população", diz a major e socióloga Mirian Biancolino Nóbrega. Até as boas intenções têm seus riscos quando em excesso. O policial se sente meio super-herói quando exagera na missão de guardião da sociedade e assume o papel de executor da sentença de morte. Para a morte não virar coisa banal ou trazer seqüelas psicológicas, os policiais envolvidos em ações que acabam dessa forma são afastados para tratamento médico. Sem isso, com o tempo o valor "vida" passa a não ter o mesmo sentido.

Muitas vezes nem a própria vida tem o mesmo sentido para o policial exposto à exaustão psicológica. Comandante do Regimento de Polícia Montada da PM em Curitiba, o tenente-coronel Roberson Luiz Bondaruk diz ser alto o número de suicídios de policiais, mas não dispõe de estatísticas. Segundo ele, depois dos desempregados o maior índice de suicídios está entre os policiais. Isso acontece porque o PM convive todo o tempo com a violência e ultrapassa o limite da síndrome de burn-out. Sem ajuda, não consegue absorver isso sozinho. Na PM, o atendimento psicológico ainda não alcança a todos. Outro sintoma é a violência, principalmente em casa.

Ainda há muitas outras razões para o estresse. Uma delas, aponta Bondaruk, passa pela população, quando esta cobra a solução de problemas para os quais o policial não tem resposta. Sobre ele recaem as frustrações de demandas não-atendidas pelo Estado. "O Estado só vem aqui (em favelas) representado pela polícia, e quando vem é para reprimir", observa o subcomandante da Academia de Polícia Militar do Guatupê, major Nilson Luiz Salata, um sobrevivente das ruas que carrega no peito e no braço esquerdo as cicatrizes de uma pistola 7.65. Em algumas localidades, essa percepção tem mudado graças ao esforço de abnegados como ele.

Repetição

Atividades voluntárias feitas fora do horário de expediente ajudam a atenuar outra angústia dos militares: o retrabalho. A facilidade com que o criminoso volta às ruas – seja pelas brechas na legislação ou por falhas no sistema prisional – faz com que o policial tenha de prendê-lo muitas vezes mais, dando-lhe a sensação de que seu trabalho é inútil. Bondaruk chama de retrabalho a necessidade de prendê-lo várias vezes. O policial o detém, se esforça para convencer a vítima a depor e, logo depois, o bandido está livre para ameaçar a ambos. Esse prende-e-solta esgota física e psicologicamente o policial e o leva a questionar a eficiência do seu trabalho. Em outros casos, ele é deslocado para a função de agente penitenciário, encarregado de cuidar justamente daqueles que ajudou a prender.

"Todo mundo precisa fazer uma higiene mental com freqüência, o que para o policial é muito difícil", diz Bondaruk. Isso por causa do sistema de trabalho, com alternância de horários e pouca folga. As escalas extras roubam o fim de semana por causa do policiamento no estádio de futebol – isso quando não tem greve, rebelião ou ordem judicial para cumprir. "Aí a folga acaba transferida para o meio da semana, quando ele não pode sair com a família para descontrair", completa. Ainda assim, médicos, economistas e bacharéis em Direito estavam entre os candidatos no último concurso para soldado da Polícia Militar. Buscavam a estabilidade do serviço público, a possibilidade de ascensão na carreira e o salário de R$ 1,3 mil, acrescido em 40% para quem tem curso superior.

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