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Comportamento

Novos tempos na Colônia Murici

A localidade de São José dos Pinhais, que é habitada por descendentes de poloneses, vê seus jovens negando as tradições e buscando vida nova nas cidades grandes

Rubens Kloss considera a rotina de dois empregos mais leve do que o trabalho na lavoura | Daniel Castellano/Gazeta do Povo
Rubens Kloss considera a rotina de dois empregos mais leve do que o trabalho na lavoura (Foto: Daniel Castellano/Gazeta do Povo)
Ana Bernadete Grockoski, 36 anos: a globalização que alarga horizontes também sepulta tradições |

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Ana Bernadete Grockoski, 36 anos: a globalização que alarga horizontes também sepulta tradições

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Veja como você deve fazer para chegar na Colônia Muricy |

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Veja como você deve fazer para chegar na Colônia Muricy

Distante seis quilômetros do centro de São José dos Pinhais, município da região metropolitana de Curitiba, a Colônia Murici* tem na Rua João Lipins – anteriormente conhecida como Dr. Muricy* – a principal via de acesso. É por ela que os moradores (todos descendentes poloneses) e visitantes chegam à localidade e passam em frente do point da juventude – um prédio de cor azul intenso que abriga bar e lanchonete –, da escola das Irmãs Franciscanas e, lá no alto, da Igreja da Sagrada Família. É por ela também que partem, alguns para nunca mais voltar, os jovens da colônia.

No local moram 737 pessoas com idade entre 15 e 25 anos, que representam 19% da população do entorno, que chega a pouco mais de 3 mil pessoas. Os dados obtidos pelo pesquisador e etnógrafo da região Valdir Holtman são de 2008 e incluem os moradores de pequenas colônias vizinhas.

Os jovens da Colônia vivem de forma diferente da de seus avós e pais, na maioria agricultores. Boa parte usa a localidade apenas como dormitório: trabalha fora e volta à noite para dormir. Muitos sonham em deixar o local e morar na "cidade grande" – na verdade, segundo o relato dos moradores, boa parte já saiu da Murici, embora não existam estatísticas que comprovem essa tendência.

Os irmãos Fontes estão entre os que usam a Colônia apenas para dormir. O estudante de Sistemas de Informação Aloir Lucas Fontes Júnior, 19 anos, trabalha na prefeitura de São José dos Pinhais. Ele sonha em se mudar para o Canadá e se especializar em sua área. O caminho de saída já foi seguido por muitos colegas – ele calcula que 80% dos seus amigos já foram ou estão indo embora. E poucos voltam para aplicar o que aprenderam fora na Colônia, segundo o irmão Lucas, 24 anos, que trabalha em uma mineradora, também no município da região metropolitana de Curitiba. "A cultura polonesa, infelizmente, tende a acabar aqui", fala. Para ele, o motivo é que os jovens não se sentem confortáveis para expressar suas tradições. "Os pais passam a cultura, mas falta a sensação de fazer parte do lugar." Fontes é exceção entre os jovens da comunidade – ele integra o Grupo Folclórico, composto por 17 pessoas.

Mesmo dentro da Colônia, os jovens buscam alternativas de trabalho e de modo de vida. O balconista Rubens Kloss, 23 anos, trabalha pela manhã no bar e lanchonete da tia situado na Colônia. O local chega a reunir 200 pessoas nos fins de semana. À tarde, atua no setor administrativo de uma transportadora da região. Já ajudou os pais na agricultura, mas reclama que esse trabalho é "muito puxado". Quanto ao lazer, fala que faltam opções para os mais jovens. Na ausência do que fazer, alguns bebem além da conta e se envolvem em acidentes de trânsito – situação comum na cidade, mas relativamente recente na Colônia. Há alguns meses, a praça da localidade, que servia de ponto de lazer, foi fechada. Kloss, porém, considera positiva a medida, alegando que havia muita confusão no local. "Vinha gente de Tijucas do Sul, de Pinhais e de outros municípios que trazia drogas e ouvia som alto. Agora, está um sossego."

Pertencimento

Frente a essas impressões da juventude da Colônia Murici, a historiadora e escritora Maria Angélica Marochi acredita que a falta do sentimento de pertencimento ao local é um dos fatores que propiciam ao jovem o desejo de buscar fora aquilo que não encontram lá.

A irmã franciscana e pedagoga do Colégio Sagrado Coração de Jesus, Inês Bacellar, tem presenciado as transformações dos jovens por duas gerações. A realidade era diferente quando a escola só tinha o ensino fundamental, relata. Os jovens terminavam a 8ª série – alguns chegavam a completar o ensino médio fora da Murici –, mas retornavam. A partir da década de 80, o perfil do estudante mudou. Ela estima que mais da metade dos adolescentes que se formam no ensino médio procura fazer curso superior fora da Colônia. "E poucos voltam, até pelas opções de emprego e lazer." Para tentar mudar essa mentalidade, a escola desenvolve um trabalho junto aos estudantes para que eles não tenham preconceito com a atividade de lavrador. "O agricultor também deve estudar, mas tem que perceber a amplitude do conhecimento e colocá-lo em prática em prol da Colônia", defende.

* Mesmo homenageando o médico José Cândido da Silva Muricy, o nome da colônia é grafado com "i"

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Interatividade

Em pequenas localidades e cidades, o que poderia ser feito para estimular o jovem a permancer na terra?

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