
O CVV está de logomarca nova. O conhecido telefone em forma de coração que acompanhou a entidade há 50 anos foi para a prateleira de baixo. No lugar, entram balões de diálogo retangulares, semelhantes ao ícone das mensagens instantâneas pela internet.
A sigla do Centro de Valorização da Vida agora é também uma abreviatura da saudação "Como Vai Você?", uma das maneiras pelas quais os voluntários iniciam o diálogo com as pessoas que os contatam em busca de apoio emocional. Mudança parecida vem ocorrendo nas salas de atendimento, onde os atendentes passaram a usar chat, Skype e e-mail. Cerca de 10% dos contatos ocorrem via internet e a fatia cresce ano a ano.
É um cenário que exige novas estratégias de comunicação. Na mais recente campanha institucional, a entidade convida as pessoas a "compartilharem com o CVV aquilo que não dividem com mais ninguém". A menção ao verbo que se tornou sinônimo de superexposição na rede não é gratuita.
"As pessoas se soltam um pouco mais pela internet e falam de forma direta o que estão sentindo. Embora também exista anonimato pelo telefone, pelo computador elas se sentem ainda mais protegidas", avalia Adriana Rizzo, porta-voz do CVV nacional.
Método
A forma de abordagem, aprimorada ao longo de anos de experiência e pesquisa científica, segue a mesma. O voluntário se propõe a ser um ouvinte paciente, sem emitir opiniões, julgamentos ou conselhos de ordem prática. O objetivo é fazer o atendido exteriorizar seus sentimentos e ponderar de forma mais sólida a respeito do suicídio.
Uma pessoa tira a própria vida a cada hora no Brasil. Segundo a Organização Mundial da Saúde, de cada 100 pessoas, 17 já tiveram pensamentos suicidas. Dessas, cinco chegaram a elaborar um plano, três efetivamente tentaram e uma chegou a ser atendida em pronto-socorro. Com 2,2 mil voluntários em 70 postos pelo Brasil, o CVV atende mais de 100 mil chamadas por ano.
O perfil do usuário é tão diverso quanto o motivo alegado da crise emocional. Há desde pessoas cujo animal de estimação morreu até pedófilos confessos. Segundo Adriana, algumas questões socioeconômicas vêm perdendo peso como motivador. "Antigamente uma separação conjugal era algo raro e condenável. Hoje se tornou comum. Perda de emprego também já não causa tanto desespero".
Por outro lado, a solidão da vida contemporânea é endêmica. Um mal do qual a internet é causa e remédio ao mesmo tempo. As pessoas se comunicam mais, porém diversos aspectos da psique permanecem ocultos.
A CVV tenta atuar nessa zona cinzenta. Não há uma razão única para o suicídio, nem fórmula única para demover da ideia. Entretanto, segundo a entidade, 90% dos casos fatais poderiam ser evitados caso a vítima tivesse tido a oportunidade de conversar sobre o assunto.



