
O bairro do Ganchinho, no extremo sul de Curitiba, demorou 300 anos para chegar até os 7 mil moradores, número computado pelo Censo de 2000. Na década seguinte, recebeu mais 4 mil habitantes e se tornou um dos bairros que mais cresceram na capital paranaense. É certo que o novo salto populacional será ainda mais breve, e com data definida: vai ocorrer a partir do final de agosto, quando 2,8 mil famílias participantes do programa Minha Casa Minha Vida, do governo federal, receberão as chaves de seus imóveis, distribuídos em cinco conjuntos habitacionais construídos ao norte do bairro, próximo ao contorno leste.
O novo aporte de moradores à região, distante 20 quilômetros do Centro, demonstra que a mancha urbana está chegando aos limites geográficos da cidade. O Ganchinho, onde ainda é possível ver pinheiros em profusão e modos de vida quase rurais, é o retrato de uma Curitiba que já não cabe em si. Por isso, incorporar o bairro à dinâmica da cidade exige investimentos para além da construção das unidades, e o transporte é a demanda mais imediata.
INFOGRÁFICO: População de Ganchinho vai crescer 25%
Distância
O bairro está fora da zona de influência das vias estruturais e a conexão com a Linha Verde é igualmente dificultosa. A criação ou extensão de linhas de ônibus está sendo estudada pela prefeitura. A principal demanda virá do Parque Iguaçu, maior dentre os conjuntos a serem inaugurados, com 1,4 mil unidades. Além do tamanho, está localizado ao sul do contorno leste, via que costumava ser o limite informal da cidade. "O contorno era justamente para desviar da cidade, e agora estamos avançando para o outro lado dele", lembra Carlos Hardt, coordenador do programa de pós-graduação em Gestão Urbana da PUCPR.
Os outros conjuntos, que ficam ao norte do contorno, se insinuam como um prolongamento do Bairro Novo e do Sítio Cercado. A ponta norte do Ganchinho se liga aos bairros vizinhos pela Rua Guaçuí, que se emenda à Tijucas do Sul. Inicialmente, os serviços públicos instalados no Bairro Novo devem servir aos novos habitantes do Ganchinho. São 15 escolas e creches, cinco hospitais e unidades de saúde e dois Armazéns da Família.
Segundo a prefeitura, há previsão de investimentos específicos para o Ganchinho, como creche, unidade de saúde, escola municipal e outra estadual. Na área do Parque Iguaçu, foram reservados 17 mil m² para a instalação de equipamentos públicos, mas a transferência do terreno ainda depende de acordo judicial.
Para Hardt, o bairro povoado precisa ter uma vida comunitária própria, baseada na descentralização de serviços. "Curitiba tem demonstrado bons exemplos de descentralização, com Ruas de Cidadania e outros serviços. No Ganchinho isso terá de ser ainda mais intenso".
Conjuntos habitados dividem opiniões
Os novos moradores do Ganchinho foram definidos pela Cohab Curitiba conforme o cadastro na fila. Também foram beneficiadas famílias relocadas de áreas de risco da região sul (Ferrovila, Uberlândia, 23 e Agosto) e de outras partes da cidade, como Mossunguê, Cajuru e Atuba.
A autarquia municipal afirma que vai dar suporte à instalação das famílias pertencentes à faixa de renda mais baixa (até R$ 1,6 mil). Um trabalho que começa na mudança e se prolonga por seis meses, com orientações sobre a gestão do condomínio, estímulo à criação de vínculo com a moradia e a comunidade, além de fazer a ponte com os programas sociais e serviços públicos.
Dois conjuntos, totalizando 640 unidades, já foram habitados. Entregues entre o final de 2012 e o início deste ano, funcionam como uma espécie de laboratório. Passados alguns meses, os moradores afirmam estar se adaptando ao novo bairro. Apontam a falta de alguns serviços públicos, como creche, e reclamam do estilo de vida em apartamento. Para a maioria, é a primeira vez nesse tipo de imóvel.
"A região é boa, mas o apartamento é ruim. Não tem privacidade. Se pudesse, saía hoje", afirma o operador de máquinas Antonio Marques Cadena, de 42 anos, vindo de Araucária, na Região Metropolitana de Curitiba, após cinco anos na fila da Cohab.



