
Telêmaco Borba A paixão pela arte da luteria fabricação de instrumentos de madeira levou Wendell de Freitas, 28 anos, ao curso de Engenharia Química. É que os projetos do lutier não são modestos ou se resumem à reprodução do famoso Stradivarius 1728. Wendell quer produzir instrumentos totalmente nacionais, desde a madeira até o verniz utilizado para o acabamento das peças. E quer mais. A partir do ano que vem pretende iniciar um projeto de extensão, em parceria com a Faculdade de Telêmaco Borba (Fateb), para ensinar música e luteria aos alunos do ensino fundamental e para a comunidade.
"Quando ele chegou aqui pensei: esse garoto é louco", brinca o diretor-geral da Fateb, Wilson José Tim Pontara. Mas decidiu apostar. O projeto prevê a fabricação de instrumentos para uma orquestra que será formada pelos moradores da cidade de 64 mil habitantes, nos Campos Gerais. A madeira será o eucalipto, doado por uma empresa reflorestadora da região. "Será a primeira experiência com essa madeira em orquestra", conta Freitas.
Segundo o lutier, o eucalipto aceita o entalhe e produz "um som doce". Mas é necessário insistir na fase de testes para achar um ponto específico na relação da curvatura do violino com a espessura da madeira, para que alcance a projeção de som que as madeiras européias tradicionais possuem. "Em um primeiro momento, esses instrumentos serão para alunos iniciantes, enquanto isso vamos aprofundar as pesquisas", completa Freitas.
Além das propriedades acústicas do eucalipto, o lutier investiga a produção de um verniz extraído do resíduo da mesma madeira. "Um frasco com verniz importado custa 600 dólares, mas temos problemaa na aplicação por causa da diferença de temperatura e umidade. Compra-se, paga-se caro e nem sempre dá para usar", conta. A produção de um instrumento com madeira e verniz nacional reduziria muito o custo de um violino. Hoje Freitas cobra entre R$ 7 mil e R$ 12 mil pela reprodução de um Stradivarius. O preço alto se deve à importação da madeira e do verniz. A versão em eucalipto deve ficar entre R$ 500 e R$ 800.
O diretor do Grupo de Percussão da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e professor de música Paulo Demarchi lembra que a madeira usada nos instrumentos não pode ser avaliada imediatamente após a conclusão da peça. É preciso um tempo de análise, também conhecido como quebra da madeira. "Só poderemos ter o pleno resultado sonoro daqui a dois ou três anos. É preciso ver como a madeira se comporta nesse período", alerta. Demarchi acrescenta que o estudo é muito importante para reduzir os custos dos instrumentos e ressalta o talento para luteria que Freitas possui. "Ele sabe o que está fazendo", afirma. O Grupo de Percussão será responsável pelos testes de alguns dos instrumentos feitos por Freitas.
Para Freitas, a maior dificuldade será o preconceito dos músicos com a madeira nacional. "Isso só vai acabar quando um concertista usar um violino de eucalipto e provar que é bom", afirma. Instrumentos da cultura japonesa, como o shamisen e o coto, também serão construídos com a madeira para testar a sonoridade.



