
Os filmes da TV Iguaçu, Canal 4, já estavam acomodados em sacos de plástico preto, prontos para virarem pó em algum aterro sanitário. Mas eis que foram resgatados e enviados para o Museu da Imagem e do Som, o MIS, onde descansam em paz. Não se sabe detalhes sobre o milagre e o milagreiro, mas se pode dizer que o gesto de misericórdia safou do apagamento um capítulo da história da televisão paranaense.
VÍDEO: Assista a trechos de filmes de Yanko Del Pino
Basta lembrar que nos tais sacos estavam as gravações do Show de Jornal o noticiário que parava a capital paranaense na década de 1970. Mas não resolvia mandar o material para o museu. Aqueles 15 mil rolos de filmes 16 mm, com 30 segundos cada, precisavam ser restaurados, assistidos e classificados. A órbita da Terra teria de ser vencida muitas vezes antes que isso acontecesse. Era preciso pessoal e investimento. Eis a questão.
A criação dos museus da imagem e do som pipocaram em várias cidades brasileiras 40 anos atrás. Foi uma boa ideia desperdiçada. Esses espaços parecem ter sofrido mais penitência que os demais museus. Talvez por não abrigarem pinturas e esculturas, mas programas de rádio e de televisão, pilhas de fotografias retratando anônimos e outros genéricos. O acervo do Canal 4 padeceu nesse limbo por duas décadas. Até ganhar uma segunda chance e virar matéria-prima para os filmes de um "curitibano deslocado" o cineasta catarinense Yanko Del Pino, 52 anos.
O material dos sacos pretos já rendeu a Del Pino, direta ou indiretamente, os documentários Beijo na Boca Maldita (2008) a respeito da mítica travesti Gilda; No lixo do Canal 4 (2011) que dispensa apresentações; Califa 33 (2013) sobre o repórter policial Ali Chaim. Logo vem por aí o inédito Um carnaval que passou, também nascido das sobras. Beijo... é um hit na internet. No lixo..., se não tanto, caiu no gosto dos conceituais: sua exibição no Museu Oscar Niemeyer, este ano, foi recebida com o status de obra de arte.
O trabalho é de moviola, como diz a turma do cinema. Yanko e sua equipe fuçam o material e fazem colagens com o que encontram, ora contando ora inventando histórias com as imagens. Nos bastidores do MIS, os feitos do cineasta são motivo de alívio. O acervo um dia quase perdido precisava ser restaurado e catalogado. Ao manipulá-lo, o lixo do Canal 4 ganhou uma segunda chance antes de ser engolido pelos fungos.
"É um dos únicos acervos que sobraram. Muita coisa se perdeu mesmo depois de chegar aqui. Os documentários que estão sendo feitos com esse material chamam atenção para o que representam e para o que ainda podem render em pesquisa", festeja o diretor da instituição, o cineasta Fernando Severo. Não se trata de retórica. O celebrado Aníbal Massaini Neto acaba de se debruçar sobre os "lixos" do passado para produzir uma série de televisão sobre Pelé. Outros virão.
"Deu no jornal"
Yanko Del Pino lembra o momento em que descobriu que seria cineasta. Guri, encontrou numa revista como transformar uma caixa de sapatos num projetor de filmes. Precisava de lâmpada, espelho e, claro, imagens. Usou as da revista Playboy e Status, o que lhe garantiu o direito de cobrar ingressos dos colegas. Anos depois, morando em Curitiba, foi cursar Edificações, na Escola Técnica, e tudo indicava que seu destino seria trabalhar com o pai, um agrimensor. Até que em 1978 descobriu os cursos da Cinemateca e a fúria criativa do multimídia Valêncio Xavier.
Nunca mais se curou. Jornalista formado pela Unisinos, o errante Yanko acabou migrando para Brasília, onde se tornou um requisitado profissional de televisão. Era da equipe do programa Estação Ciência, da Rede Manchete. Em paralelo, levou as lições da caixa de sapato e das oficinas de Valêncio. Fez desenho animado e até um divertido curta erótico Deu no jornal rodou 40 países e rendeu a Yanko uma bolsa de estudos na Espanha. Mas eis que bateu saudades da cidade onde passou a juventude.
"Acho que com tantas idas e vindas eu acabei ficando com um olhar privilegiado sobre Curitiba", conta. Em suas visitas, no início dos anos 2000, passou a perguntar onde andavam as soluções criativas da era Lerner. E a ressentir o sumiço de alguns personagens um deles era Rubens Aparecido Rinke, a Gilda, um mix de travesti sem glamour, mendicante doida e carnavalesca marginal. Durante anos, os cavalheiros da Boca tinham medo de serem beijados por ela, de surpresa. Yanko teve medo foi de que a esquecessem. Daí surgiu a ideia de fazer o documentário Beijo na Boca Maldita. Precisava de imagens em movimento. Foi parar no acervo do MIS.
É bom lembrar que Yanko não conseguiu encontrar as filmagens do Canal 4 sobre Gilda. As que usou foram cedidas pelo Canal 12, a RPC. Mas a frustração serviu para que fizesse projetos de lei que incluíssem limpar e digitalizar aqueles milhares de rolinhos. Conseguiu cumprir 20% da tarefa, tirando dali imagens para os demais filmes que produziu. "É estimulante. Trabalhar com o que já foi filmado é como comer sopa, vai-se pelas beiradas", compara.
Nos últimos cinco anos de pesquisa, Yanko identificou reportagens sobre a visita do galã francês Alain Delon e do ator Telly Savallas, o Kojak. Corpos estendidos no chão em matérias policiais. A despedida de Sete Quedas. Editoriais elogiosos a Itaipu. E até takes do baile Gala Gay. Só lhe resta fazer mais planos seu próximo documentário será sobre as transformações urbanísticas de Curitiba na década de 1970. As informações a respeito estavam lá no lixo do Canal 4.
"Tava" no rolo
Material dos telejornais do Canal 4 geram "colagens" na moviola de Yanko Del Pino. Ele trabalha com a produtora Geni Clarindo da Cruz e com músico Celso "Piratta" Loch. Produziram quatro documentários com as "sobras" e preparam um quinto, ainda sem título, sobre a urbanização de Curitiba nos anos 70
Beijo na Boca Maldita (2008) - 16 minutos
Em busca de imagens do Canal 4 sobre a travesti, Yanko acabou selecionando material sobre o carnaval, sobre a Curitiba transformada pelo Calçadão, e o personagem Ali Chaim, tema de seus próximos trabalhos. Beijo... mostra a agressão que Gilda sofreu do cavalheiro da Boca, Anfrísio Siqueira, e resgata o local dela no imaginário da cidade.
No lixo do Canal 4 (2011) - 72 minutos
Produção de fôlego, traça painel da Curitiba e do Paraná que apareciam no programa Show de Jornal, o mais importante da emissora. Destaques para a publicidade do desodorante Vaness à Vasp -, passando pelo vespertino de sábado do apresentador Mário Vendramel. Numa das cenas, o advogado Vitório Soratiuk fala de sua volta do exílio, em tempos de Anistia. Destaque: reportagem na XV sobre usar ou não minissaia.
Califa 33 (2013) - 26 minutos
Imagens de época e novas entrevistas traçam perfil do jornalista Ali Chaim, marco da reportagem policial paranaense. Numa das cenas, Chaim de hoje flagra delegacia fechada na madrugada. Em cenas de ontem, reporta o transe de galinhas que "bicaram" cocaína atirada num terreiro por traficantes, para despistar a polícia.
Um carnaval que passou (2013) - 27 minutos
Para quem desdenha do carnaval de Curitiba, documentário também com colagens de época mostra "pré-história" da folia, com bandas de rua e convivência entre as mais diversas tribos urbanas.
VIDA E CIDADANIA | 1:58
Documentário Califa 33, de Yanko Del Pino, resgata imagens de época e o depoimento do repórter policial que marcou a imprensa paranaense a partir do final da década de 1960.
NO LIXO DO CANAL 4
VIDA E CIDADANIA | 2:22





