Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Urbanização

O impacto dos cânions de concreto

Evitar a formação dos paredões formados por prédios, que concentram poluentes atmosféricos e sonoros, é o desafio para as prefeituras

Avenida Sete de Setembro: existência de prédios altos dos dois lados da via favorece a concentração de poluentes | Antônio Costa/Gazeta do Povo
Avenida Sete de Setembro: existência de prédios altos dos dois lados da via favorece a concentração de poluentes (Foto: Antônio Costa/Gazeta do Povo)

O que Marechal Floriano, Sete de Setembro, República Argentina, Avenida Paraná e João Gualberto têm em comum? Além de serem vias estruturais de Curitiba, essas ruas formam o que os especialistas chamam de cânions urbanos: trechos com altos prédios de ambos os lados, que têm verdadeiros paredões de concreto e apresentam tendência a acumular maior volume de poluentes atmosféricos e sonoros. "Como o ar não circula entre os edifícios, a poluição tende a se concentrar em vias com essas características", explica a arquiteta Ana Paula Bender Trento, mestre em gestão ambiental, que tratou do assunto em sua dissertação de mestrado na Universidade Positivo.

A pesquisa alerta para a necessidade de se planejar adequadamente o zoneamento das cidades, já que os cânions não existiriam se as prefeituras não tivessem permitido a construção de paredões. "Se ao menos um dos lados da via fosse poupado, seria uma boa solução. Mas há outras alternativas, como intercalar edifícios mais baixos e outros mais altos. Trabalhando, efetivamente, com diferentes alturas podemos fazer com que o ar circule", diz.

Nova visão

Em Curitiba, a ocupação dos setores estruturais foi incentivada até o ano de 2000, com uma lei urbana que estimulava o adensamento e não coibia os paredões. A distância entre as divisas poderia ser de apenas dois metros – um espaço pequeno, que prejudicava até mesmo a incidência de luz. No Centro da cidade, a questão era mais preocupante: houve uma época em que nenhuma exigência era feita em relação ao distanciamento de divisas.

Somente a partir de 2000, com a nova lei de zoneamento, é que Curitiba começou a exigir um distanciamento mínimo nas construções – o afastamento de divisas deve ser proporcional a altura do edifício, ou seja, quanto mais alto o prédio, mais afastado do terreno vizinho ele deve ficar. "Hoje a legislação municipal está voltada para esta questão. Antigamente já havia alguma determinação. No Código de Posturas do município de 1953, como exemplo, já se falava na necessidade de fazer uma relação entre a largura da rua e a altura do prédio. Só atualmente, porém, surgiram iniciativas mais pontuais", afirma o diretor de Departamento de Fiscalização do Uso do Solo da prefeitura, Roberto Marangon.

Dispersão

Apesar de não haver dosagens sobre a quantidade de poluição nas ruas de Curitiba – o que permitiria provar, em números, que as vias estruturais concentram mais poluentes do que as outras –, um trabalho feito pelo Instituto de Tecnologia para o Desenvolvimento (Lactec), de Curitiba, mostra que nos locais onde há um número maior de prédios existe maior poluição concentrada. No início da semana passada, por exemplo, a estação de monitoramento da qualidade do ar, localizada na Praça Ouvidor Pardinho, região central de Curitiba, apontava 6,2 mg/m2 de monóxido de nitrogênio (NO) em concentração, enquanto que no bairro Santa Cândida havia 0,4 mg/m2 de monóxido de nitrogênio (NO). "Isso mostra uma diferença na dispersão do ar. No Centro, se comparado ao Santa Cândida, a dispersão é menor por causa das construções elevadas", comenta o engenheiro químico e pesquisador do Lactec, Jair Duarte.

Um dos fatores que deve ser levado em conta na hora de avaliar se uma rua é mais poluída que a outra é a direção dos ventos. "O que limpa o ar da cidade é o vento. É como o rio e o lago. No primeiro a sujeira se diluiu, dispersa. No segundo ela fica parada e afeta mais", explica o coordenador do mestrado em Gestão Ambiental da Universidade Positivo, Maurício Dziedzic. Apesar de o cânion ter a tendência de concentrar poluição, há, por outro lado, um ponto positivo: ele pode potencializar a limpeza do ar se o vento estiver ao seu favor, na direção da rua, o que não acontece quando o vento está na direção transversal dos prédios.

Dziedzic afirma que em nenhum lugar do mundo, até hoje, há uma preocupação em criar leis de zoneamento a partir destes impactos, até porque seria uma medida paliativa. "O mais importante é atuar nas fontes de poluição e não nas consequências dela", fala. O engenheiro químico Jair Duarte lembra que os fatores impactantes são, principalmente, frota antiga de veículos (incluindo ônibus, caminhões e motocicletas), com pouca ou nenhuma manutenção.

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.