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Protestos

O jornalismo colaborativo e conectado da Mídia Ninja

Utilizando a tecnologia, os “ninjas” trabalham para dar visibilidade a movimentos sociais por meio de uma cobertura “independente”

Grupo busca nova abordagem na cobertura das manifestações | Marcelo Camargo/ABr
Grupo busca nova abordagem na cobertura das manifestações (Foto: Marcelo Camargo/ABr)

"Se você odeia a mídia, então seja a mídia. Ficar parado não vai mudar nada". A frase sintetiza o que move o Mídia Ninja, grupo que está ganhando destaque com sua cobertura dos protestos que vêm ocorrendo nas últimas semanas em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo. Dita por Fernanda Quevedo, ninja responsável pela Região Sul do Brasil, ela engloba as palavras presentes no acrônimo "Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação" que formam o nome do grupo existente desde 2011, quando cobriu a Marcha da Liberdade na capital paulista. Depois de mais dois anos e de mais experiência em campo, eles buscam levar a batida "transmissão ao vivo" da tevê a novos patamares.

"Queremos desenvolver uma narrativa alternativa à produzida pela mídia tradicional e conectar as pessoas por meio dela", explica Filipe Peçanha, o Carioca, ninja que ficou conhecido depois de ter sido preso pela Polícia Militar do Rio de Janeiro no último dia 22. Para fazer isso, 50 pessoas espalhadas pelo país lançam mão da tecnologia: smartphones, câmeras, notebooks e conexão 3G são fundamentais para suas equipes, normalmente formadas por fotógrafo, redator, cinegrafista e alguém para lidar com as redes sociais.

Produção colaborativa

A colaboração é fundamental para a manutenção dos ninjas, tanto no aspecto de produção de conteúdo – eles recebem material, dicas e sugestões de pautas e, depois de analisá-los e verificar sua veracidade, partem para a rua – quanto no financeiro. Quem paga as contas hoje é a organização Fora do Eixo, composta por mais de 200 coletivos de quase todo o país e que é voltada à realização de shows de música alternativa. Em curto prazo, há planos para implementar um site próprio para a Mídia Ninja, no qual será possível colaborar financeiramente com eles. "A ferramenta colaborativa de arrecadação é ideal porque assim conseguimos manter nossa independência", comenta Carioca, que inclusive vive numa casa marcada pelo coletivo, com 20 pessoas dividindo até o armário.

Caso a onda de protestos chegue ao fim, os ninjas garantem que continuarão trabalhando do mesmo modo como faziam antes dos levantes. "Já criamos uma série sobre as eleições municipais para a PósTV [braço audiovisual do Ninja], além de debates e reportagens fotográficas sobre diversos temas. Para o futuro, pretendemos desenvolver uma nova grade de programação", adianta Carioca.

Análise"Ninjas" podem influenciar o modelo tradicional

Por mais destaque que o Mídia Ninja esteja conquistando, ele não faz algo necessariamente novo. "A história da imprensa alternativa é cheia de exemplos. Na Grande Batalha de Seattle de 1999, o Indymedia fazia uma cobertura igual, a não ser pelos vídeos", conta a coordenadora do grupo de pesquisa de Comunicação e Mobilização Política da UFPR Kelly Prudencio.

O "jornalismo Ninja" é visto com reservas pela jornalista Elza Oliveira Filha, doutora em comunicação e professora da Universidade Positivo (UP). Para ela, por mais que os ninjas estejam usando sua liberdade de expressão, ainda não se pode dizer que estejam realizando um trabalho propriamente jornalístico. "Não me parece que eles deem conta de elementos como a interpretação e a contextualização da notícia, pontos fundamentais para o jornalismo", justifica.

Críticas à parte, tanto Elza quanto Kelly acreditam que o conteúdo colaborativo pode influenciar a mídia tradicional, que vem tentando encontrar novas formas de se comunicar. Segundo elas, elementos como a objetividade e a imparcialidade devem perder força e abrir espaço para um repórter mais flexível, próximo e aberto.

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