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Curitiba

O ocaso de um ícone curitibano

O cartão-de-visitas da Rua 24 Horas – ainda um dos pontos turísticos mais procurados de Curitiba – sempre foi justamente o que o nome diz: atravessar dia e noite com comércio e serviços abertos à população. Mas a fama de "rua que não dorme" já não condiz com a realidade. Nos últimos meses, quase 70% das lojas e bares abandonaram o expediente noturno. "Ainda mantenho meu ponto aberto 24 horas para dar o exemplo, mas são poucos os que continuam a funcionar após a meia-noite", diz Roberto Amaral, presidente da Associação dos Lojistas da Rua e dono de uma revistaria no local. "O custo não compensa."

O número reduzido de clientes e os gastos elevados com luz, água e funcionários forçaram a rua a mudar de perfil, se distanciando da proposta original. O projeto era bem representado pelo grande relógio de círculo duplo, instalado nas duas entradas da rua (Visconde de Nácar e Barão do Rio Branco) desde sua inauguração, em 1991.

O fechamento à noite, antes proibido, só foi adotado após um acordo com a Urbs, autarquia municipal que administra o local, há cerca de três anos, segundo a associação. Mesmo assim, alguns comércios sucumbiram ante às despesas, deixaram de pagar o aluguel e tiveram os estandes retomados pela prefeitura mediante ações judiciais. O fechamento definitivo e a demora do processo de licitação para reocupá-los deixou vazios na rua mais famosa da capital, reforçando a sensação de abandono. Segundo a associação, oito pontos não abrem mais.

Degradação

As goteiras ao longo dos 120 metros da estrutura metálica em forma de arco, com cobertura de vidro, são o retrato da decadência da atração turística. "Das 30 mesas que temos, 28 ficam molhadas quando chove", afirma o garçom Valdir da Cruz, que trabalha há 13 anos no local. E há outros problemas. "Os banheiros estão uma vergonha e as mesas e cadeiras que quebram não são repostas", reclama Francisco de Assis Rodrigues, garçom há 12 anos na 24 horas.

Curiosamente, a falta de segurança não faz parte do rol de problemas do ponto turístico. "Quase não registramos casos de furto", conta Amaral que, apesar disso, solicitou presença de mais guardas municipais. A queixa maior refere-se ao comportamento de alguns freqüentadores da rua. "Não temos nenhum preconceito, mas alguns grupos têm de saber se comportar", afirma Regina Palazim, dona de uma loja de lembranças da cidade. "Eles não são discretos, fazem algazarra e assustam os outros", queixa-se Rodrigues. "Eles", no caso, são turmas de homossexuais. A prostituição é outro problema tão antigo quanto a rua e que nunca foi resolvido.

"A rua está degradada e a imagem dela hoje depõe contra a cidade", afirma o presidente da Associação Brasileira das Agências de Viagem (Abav) do Paraná e vice-presidente da Associação Comercial do Paraná, Antônio Azevedo. "Os visitantes ficam impressionados com o abandono e não vêem mais nada de especial ali."

De acordo com Azevedo, muitos guias de turismo que promovem passeios pela cidade já tiraram a 24 Horas dos roteiros. O desembarque de grupos de turistas se tornou raro, afirma Regina. "Estamos instalados ao lado de uma rede hoteleira muito boa, mas a gente sabe que os hotéis já não indicam mais a 24 Horas aos hóspedes como antigamente."

A comerciante é categórica ao afirmar que a rua precisa urgentemente de uma reforma estrutural. "Do jeito que está não pode ficar. A rua é um ponto de divulgação da imagem de Curitiba. A imagem que ela está passando da cidade não é boa", diz.

Roberto Amaral defende ainda uma reforma contratual, pois a maioria dos lojistas não está conseguindo pagar o aluguel e o condomínio cobrados pela Urbs. "O aluguel de qualquer ponto comercial na região em que estamos localizados é de 30% a 40% mais baixo do que aqui."

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