
Nos últimos 20 anos, 3.296 membros da comunidade GLBT (gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais) foram mortos no país, o equivalente a 164 casos por ano. Em Curitiba, nas últimas duas décadas, foram 160 mortes. O Paraná, no ano passado, foi o estado que mais registrou assassinatos homofóbicos no país: 25. Em entrevista à Gazeta do Povo, o presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (AGBLT), Toni Reis, fala sobre a escalada da violência que assombra a comunidade, a morte do escritor Wilson Bueno e a nova faceta política das Paradas Gays. Acompanhe os principais trechos. Investigação policial revelou que o escritor Wilson Bueno foi morto por um garoto de programa, de 19 anos, em sua própria casa na última segunda-feira. O acusado confessou o crime. Como evitar situações assim?
Nós temos um material chamado: "Não durmo com o inimigo". Infelizmente, entre os gays, é comum a morte acontecer na sua própria casa. Levando pessoas estranhas para casa, acaba-se correndo risco. Gays que não assumem a sua orientação sexual acabam não tendo contato com seus vizinhos e isso os coloca ainda mais em risco. Mas a regra vale para qualquer ser humano: levar uma pessoa estranha para a sua casa não é legal. Nos casos dos gays, há a dificuldade de não poder (ou não querer) fazer encontro em lugar público.
Segundo a confissão, Bueno foi morto em sua casa por um garoto de programa que se voltou contra o próprio cliente...
Esses são os chamados falsos garotos de programa. São pessoas que têm uma identidade ainda confusa ou uma sexualidade ainda não definida. Eles, muitas vezes, acabam fazendo sexo por dinheiro e depois se arrependem. Matam o cliente como uma forma de matar em si a homossexualidade. Matar uma pessoa não vai modificar aquele comportamento.
Esses casos são os principais tipos de crimes contra gays hoje?
Há casos parecidos com o do Wilson Bueno, envolvedo crimes passionais, roubo. Há muitos casos também de assassinatos de travestis, com crimes ligados ao tráfico e às drogas, mas que não quer dizer que não envolva a questão da homofobia e do preconceito indiretamente. As travestis, por sofrerem tanta discriminação e preconceito, têm a prostituição como a última alternativa de trabalho e acabam vivendo num contexto de vulnerabilidade que traz esse tipo de violência.
O que fazer para não se colocar em situação de risco?
Não levar estranhos para casa. Se dar muito bem com os vizinhos. Na portaria, sempre que levar alguém estranho para casa, apresentar ao porteiro. Não deixar objeto, facas, armas à vista. O ideal é fazer programas em motel, que é um local público. Corre-se menos risco. Em Curitiba, tem muito lugar para gay frequentar. Temos bares, boates, saunas.
A Parada Gay de São Paulo, que acontece neste domingo, traz como tema "Vote Contra a Homofobia Defenda a Cidadania". A ideia é politizar o movimento?
Exatamente. As paradas agora terão muito mais um indicativo político. A Parada em São Paulo reúne 3,5 milhões de pessoas. Em Curitiba, 100 mil. É um número importante de pessoas, suficiente para definir uma eleição. É importante que elas saibam em quem votar. O que queremos é que essas pessoas tenham a consciência de votar em uma pessoa que seja fora do armário em relação a suas convicções políticas. Ou seja, alguém que seja favorável à igualdade de direitos para todos: gays, lésbicas, evangélicos, curitibanos, paranaenses, paulistas, que não tenha diferença. Não queremos candidatos que falam em discutir, mas enrolam. Queremos aqueles que declarem abertamente o apoio a nós. O que nós queremos não é nem menos, nem mais: são direitos iguais. Não estamos reivindicando privilégio nenhum. Que sejam eleitos aqueles que respeitem a Constituição Federal, que diz: todos são iguais perante a lei e não haverá discriminação de qualquer natureza.
E como vai ser uma Parada Gay preto e branco?
É uma questão do luto mesmo. As Paradas têm o cunho de comemorar a diversidade, mas também temos que colocar o tom do preto e branco em alguns carros. Claro que vai ter a bandeira do arco-íris, porque o colorido faz parte da diversidade, mas o preto é para simbolizar o luto-luta.
Quais as principais reivindicações do movimento hoje?
Nós temos três propostas no Congresso Nacional: a criminalização da homofobia, o reconhecimento da união estável e o nome social para travestis e transexuais, que já é reconhecido nas escolas do Paraná. Em relação à união estável, é importante dizer que não se trata de casamento. O casamento pode até vir no futuro, mas não está na pauta no momento. Casamento é questão de dogma, vestido de noiva, bênção do pastor. Não queremos isso. Cada um tem a sua religião. O que nós queremos são os direitos civis: a herança, a imigração, plano de saúde, etc. Eu e meu companheiro David, por exemplo, estamos juntos há 20 anos e, às vezes, eu pergunto: o que você é meu? Ele é meu marido e eu sou marido dele, mas no papel nós não somos nada, nós não existimos para exercer a cidadania.
A Justiça tem reconhecido vários direitos...
Tem, mas é preciso entrar na Justiça. Queremos que exista a previsão já em lei. Comparando uma pessoa homossexual e uma pessoa heterossexual, nós temos 78 direitos negados à nossa comunidade.
Há algo para se comemorar em tantos anos de militância?
Uma pesquisa recente mostra que 40% da população é a favor de adoção de crianças por homossexuais. Mesmo sendo um porcentual minoritário é um avanço. Eu lembro que em 1995 apenas 7% da população nos apoiava. Estamos evoluindo a passos largos. Para mudar uma cultura homofóbica e discriminatória para uma cultura de respeito demora tempo e precisa de uma ou duas gerações. E nós estamos conseguindo fazer essa transformação. Vejo uma luz no fim do túnel, sim. O que nós queremos é respeito. Se nos aceitar, ótimo, mas não estamos exigindo aceitação. É o respeito à cidadania e aos direitos humanos que exigimos. Não queremos impor ditadura gay a ninguém.
Serviço:
O Manual "Não Durmo com Inimigo" pode ser encontrado na página www.ggb.org.br/manual.html



