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punição social

O que a dor alheia pode ensinar

Instituto Paz no Trânsito reeduca motoristas infratores por meio de terapia coletiva com famílias que perderam filhos em acidentes

Christiane Yared perdeu o filho Gilmar em 2009, no acidente de trânsito que envolveu o ex-deputado Carli Filho | Hugo Harada/ Gazeta do Povo
Christiane Yared perdeu o filho Gilmar em 2009, no acidente de trânsito que envolveu o ex-deputado Carli Filho (Foto: Hugo Harada/ Gazeta do Povo)
Bruno da Rocha se envolveu em um acidente fatal quando ainda não tinha habilitação |

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Bruno da Rocha se envolveu em um acidente fatal quando ainda não tinha habilitação

A regra é quase sempre a mesma: quem comete um delito no trânsito costuma pagar pouquíssimo por ele. Embora as consequências de dirigir sem habilitação ou sob efeito de álcool possam ser irreversíveis, na grande parte dos casos o infrator é condenado a fazer uma doação ínfima ou prestar serviços em escolas e instituições de caridade. São ações punitivas, mas pouco eficientes no sentido de formar motoristas melhores e mais conscientes. Na contramão da regra, reeducar o réu, fazendo-o tomar contato com a dor de famílias mutiladas por acidentes de trânsito, é um dos objetivos do Instituto Paz no Trânsito (Iptran). A iniciativa, pioneira no Paraná e no país, surgiu em 2010 e já atendeu 126 condutores infratores em Curitiba.

Um deles é o jovem Bruno Prohmani da Rocha, 18 anos, que se envolveu em um acidente de mobilete que resultou em uma morte no ano passado. Na época, o rapaz era menor de idade, não tinha habilitação e não usava capacete. Em uma tarde de domingo, a duas quadras de casa, encontrou um pedestre alcoolizado no caminho. "Ele estava fora da faixa, não o vi. No dia seguinte, ele morreu", recorda. A mobilete foi apreendida e Bruno encaminhado ao Iptran, há seis meses. "Ouvir os depoimentos aqui é uma forma de pensar. A lição que fica é só fazer as coisas conforme manda a lei", afirma o operador de prensa, que agora está tirando a primeira habilitação.

Tragédia pessoal

O sofrimento das mães que perdem filhos no trânsito, motor dos projetos do Instituto, foi também a motivação para seu surgimento.

Quando perdeu o filho Gilmar Rafael Souza Yared, 26 anos, em um acidente envolvendo o ex-deputado Luiz Fernando Carli Filho, há quatro anos, Christiane Yared viu sua dor exposta na mídia. "Perguntaram-me se não seria melhor eu chorar sozinha em casa, mas decidi que eu não seria só mais uma." Dias depois do acidente, ela começou a receber ligações de mães que vivem o mesmo, querendo ajuda para superar.

Mais tarde, em conversa com o juiz da 2.ª Vara de Delitos no Trânsito, Lourenço Cristovão Chemin, surgiu a ideia de assistir também o infrator. Desde o início do ano passado, delitos passíveis de pena alternativa são encaminhados à instituição. As doações – que variam de R$ 200 a R$ 1 mil – pagam o aluguel e as psicólogas.

No Iptran, o infrator passa por dez horas de terapia individual, cinco horas no núcleo das famílias – onde ouve histórias de mães órfãs do trânsito – e 25 horas de prestação de serviços em hospitais de traumas de Curitiba.

Modelo é mais educativo, diz juiz

Curitiba conta com duas Varas de Delitos no Trânsito, mas somente a 2.ª encaminha infratores para o Iptran. Na 1.ª Vara, réus primários de crimes "com menor potencial ofensivo" têm o benefício previsto em lei de prestação pecuniária. "O juiz designa a instituição cadastrada. O valor depende da gravidade da infração e da situação financeira do acusado", explica a escrivã Maria Vilma Bastos de Lima.

Dos 1.486 processos que deram entrada na 2.ª Vara de Delitos de Trânsito de Curitiba no ano passado, 501 geraram encaminhamentos a algum tipo de prestação de serviço, (33,7%). O convênio com o Iptran teve início há um ano e meio e, por isso, não há estatísticas da efetividade da proposta. Mas, segundo o juiz titular da 2.ª Vara, Lourenço Cristovão Chemin, não houve reincidências entre os atendidos pela instituição.

Antes, o acusado era encaminhado à Fundação de Ação Social (FAS) e acabava prestando serviço em escolas. "Era uma pena não tão educativa. Nesta instituição pioneira, a pessoa toma ciência do que acontece com vítimas de motoristas embriagados. Muitos viram voluntários", destaca Chemin.

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