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Análise

O que faltou?

Especialistas dizem que não faltaram investimentos em linhas. Problema pode estar na verba para manutenção ou atualização tecnológica do sistema

Sala de controle da usina de Itaipu: prioridade dos onze operadores que trabalhavam no local no início do blecaute era retomar o funcionamento das turbinas | Christian Rizzi / Arquivo da Gazeta do Povo
Sala de controle da usina de Itaipu: prioridade dos onze operadores que trabalhavam no local no início do blecaute era retomar o funcionamento das turbinas (Foto: Christian Rizzi / Arquivo da Gazeta do Povo)

À falta de detalhes mais precisos sobre as causas do blecaute, a oposição ao governo federal se apressou em culpar a falta de investimentos públicos em li­­nhas de transmissão. A maioria dos analistas e representantes do setor consultados pela Gazeta do Povo discorda dessa avaliação, mas admite que pode ter faltado dinheiro para a manutenção das linhas existentes, bem como para a atualização tecnológica dos sistemas de segurança do setor.

"Prefiro acreditar em falha técnica pontual ou em problemas climáticos, como aponta o governo. Mas não sabemos o quão forte ou atualizado está o sistema em termos de manutenção. Se há problemas na manutenção, aí a questão não é casual, e certamente teremos mais apagões pela frente", alerta Paulo Toledo, diretor da comercializadora Ecom Energia.

O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, disse ontem que, nos últimos seis anos, o governo investiu R$ 22 bilhões em linhas e R$ 8 bilhões em transformadores de energia. Por outro lado, o ritmo das obras enquadradas no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) exibe números bem mais discretos. Dos aportes de R$ 12,5 bilhões previstos para quase 40 linhas de transmissão entre 2007 e 2010, apenas R$ 1,557 bilhão – pouco mais de 12% – foi aplicado até agosto passado.

"Não se pode alegar que faltaram investimentos", diz Cláudio Sales, presidente do Instituto Acende Brasil, um centro de estudos do setor. "Todas as linhas projetadas pelo governo, submetidas a leilão, foram alvo de grande concorrência por parte de empresas estatais e privadas e foram, ou estão sendo, construídas."

A opinião é compartilhada pelo pesquisador Raul Timponi, do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). "A partir de 2001, ano do racionamento, houve uma intensificação dos investimentos em transmissão, fortalecendo a integração dos subsistemas e aumentando a capacidade de intercâmbio de energia entre as regiões. O sistema ficou mais robusto", avalia. "Por outro lado, a interligação também facilita a disseminação de problemas. E aí é preciso verificar se é necessária uma nova linha de Itaipu para a Região Sudeste, ou uma espécie de ‘túnel’ para a energia contornar o trecho com falha e seguir adiante."

Otavio Santoro, sócio-diretor da consultoria Indeco Energia e Água, diz que a expansão resultou em mais carga – e responsabilidade – para o Sistema Interligado Nacional (SIN), mas que a gestão da qualidade e da proteção do sistema não cresceu na mesma proporção. "É questão de espalhar sensores ao longo das linhas, para monitorá-las a distância e evitar que defeitos se multipliquem ao longo dos outros circuitos", explica. "É um investimento que tem de ser feito não apenas para as linhas de Itaipu, mas que terá de ocorrer nas linhas gigantescas que transportarão a energia das usinas do Rio Madeira, em Rondônia, e de Belo Monte, no Pará."

Ex-diretor da Copel e diretor da consultoria Enercons, o engenheiro eletricista Ivo Pugnaloni aponta para o "desmonte" do setor elétrico. "Linha de transmissão não faltou. Tal­­vez tenham faltado melhorias no sistema de informática, sistemas melhores para os planos de contingência e, especialmente, gente. Gente para simular planos de contingência, por exemplo. Mas a Aneel, agência responsável pelo monitoramento do setor elétrico, tem apenas 500 funcionários, enquanto a Anatel [telefonia] tem 1,6 mil, a Anac [aviação] tem 2,5 mil e a ANTT [transportes] tem 2,2 mil."

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