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Quem vai ficar com David?

O rejeitado do Champagnat

Há oito anos, réplica de Michelângelo ocupa quintal de um restaurante na Rua Padre Agostinho. O dono a colocou à venda, mas querem dar por ela “duas caixas de bananas”

Vista do “David do Café Maria”, na Rua Padre Agostinho: casa está em obras e a peça à venda em regime de urgência | Priscila Forone/ Gazeta do Povo
Vista do “David do Café Maria”, na Rua Padre Agostinho: casa está em obras e a peça à venda em regime de urgência (Foto: Priscila Forone/ Gazeta do Povo)

Com 60 mil dólares – algo próximo de 120 mil reais – dá para comprar uma BMW Série 1, ou uma Land Rover na promoção, ou um Volvo C30 ou uma réplica quase-perfeita do "David", de Mi­­chelângelo, obra-símbolo do Re­­nascimento Italiano. Segundo seu proprietário, o empresário Carlo Nuovo, 67 anos, o preço é uma pechincha. "Sabe em quanto está cotada uma peça dessas? Em 400 mil euros." Ou seja, uma dezena de Land Rovers na promoção.

Mesmo assim, Nuovo – um italiano grisalho, baixinho, politicamente incorreto, em contagem regressiva para deixar o Brasil "e nunca mais voltar" – não consegue se livrar do maior e mais pesado item de sua bagagem: a estátua em mármore de Carrara de 5,15 metros e 4,5 toneladas.

"Já ofereci para donos de marmoraria e de restaurantes. Querem me pagar com duas caixas de bananas. Perguntam se é de gesso. Prefiro quebrá-la com uma picareta a dá-la", exalta-se, em meio a uma conversa no Bigorrilho, bairro onde instalou, há oito anos, a escultura popularmente conhecida como "David do Café Maria".

Essa história começa no final da década de 90, quando o genovês Carlo – radicado em São Francis­­co, na Califórnia – veio a Curitiba visitar os parentes de sua mulher, a colombense Aglair Cardoso. Achou a cidade próspera. E como diz ele, as andanças como imigrante, primeiro na Inglaterra e depois nos Estados Unidos, tinham lhe ensinado que "é melhor ter dinheiro em vários ninhos. Quando um seca, recorre-se a outro."

Foi o que fez: comprou terrenos em zonas nobres da capital paranaense, entre eles uma área de 500 metros quadrados na Padre Agos­­tinho com a Aristides Athaí­­de, hoje apelidada pelo proprietário de "esquina da maldição". Ali, em parceria com o sócio Eder Fer­­nandes, 44 – do ramo de restaurantes –, inaugurou um dos endereços mais elegantes de Curitiba, o Café Maria. "Estava ganhando um bom dinheiro e decidi investir." Por "investir" entenda-se repetir aqui uma receita que tinha dado certo no seu restaurante ianque: usar réplicas de peças clássicas italianas na decoração. Os americanos, dizem, adoram. Os curitibanos, nem tanto, como Nuovo percebeu. Mas já era tarde.

Eder conta que tentou convencer o sócio de que os fregueses não fariam fila para ver uma réplica do "David". Sem sucesso. Em 1998, Car­­lo fez contato com o ateliê de escultura Franco Cervietti, em Pie­­trasanta, Centro-Norte da Itália. É um lugar conceituado. Para que se tenha uma idéia, a polêmica peça de Marc Quinn que retrata a modelo Alison Lapper, grávida e sem braços, foi feita lá. Outro dos grandes que frequenta o Cervietti é o escultor colombiano Fernando Botero.

Mas grosso modo a especialidade do Cervietti são réplicas de obras famosas: quem quiser levar para casa "As Três Graças", de Ca­­nova, ou a "Vitória de Samo­­trácia", é só desembolsar uma montanha de euros. Foi o que fez Carlo Nuovo ao encomendar o "David", de Mi­­chelângelo, peça que tem pouca saída, dado seu significado. É nada menos o ícone de Florença, o que torna sua cópia uma operação de risco: alguém vai debochar. A de Curitiba levou dois anos para ficar pronta. "Só existem duas no mundo", garante, referindo-se à que es­­tá no Caesar Palace de Las Vegas. A outra é a da "esquina maldita".

Uma "googada" desmente a con­­ta. Tem "Davids" em Buffalo e em St. Justine, na Flórida, e não raro algum viajante liga o nome à pessoa e o flagra num shopping ou num parque. Duro é saber se têm o selo da Cervietti. A de Curitiba tem, o que ajudou no barulho: sua chegada parou o trânsito.

Em 2000, ano da entrega, Eder Fernandes viveu seu dia de Indiana Jones. Foi ele quem recebeu a réplica no Porto de Paranaguá e viajou quatro horas de caminhão até a Padre Agostinho, exigindo que o motorista passasse cada lombada com a leveza de um bailarino do Bolshoi. "Nenhum arranhão", garante. O então prefeito Rafael Greca deu uma mãozinha e fechou a rua para "David" ser acomodado às margens do Barigui.

Desde a década de 50, quando houve a instalação do "Homem Nu", de Erbo Stenzel, na Praça 19 de Dezembro, não se via nada igual. Detalhe: num caso e outro a vizinhança nem bem viu e não gostou.

Em pouco tempo, o "David do Café Maria" se tornou alvo de um motim à moda do Bigorrilho, reduto de famílias ucranianas e polonesas, mais afeitas a ícones bizantinos do que às liberalidades renascentistas. Falava-se em abaixo-assinado e em "cobrir as vergonhas", tal como aconteceu em Florença, só que no século 16. Carlo Nuovo chegou a pensar que a polêmica poderia ajudar. "Quem sabe uma fábrica de cueca usasse a estátua para uma propaganda. A Zorba. Mas o Eder não foi atrás. A gente podia ter ganhado dinheiro com um escândalo", queixa-se.

A peça não se pagou. Ele e o sócio não se falam mais – no que o caro, pesado e pelado "David" tem parte de culpa. Carlo, por exemplo, não se conforma com a posição da escultura, segundo ele, decidida por Eder. O herói bíblico que derrotou Golias ficou de costas para a Padre Agostinho, rua de mão única, fazendo com que seu derrière seja a primeira impressão para milhares de motoristas que descem rumo ao Parque Barigui. A muralha do Café Maria chegou a ser erguida, para dar privacidade ao pobre, o que não refrescou em nada: tem-se a impressão que o gigante está fazendo pipi.

Para ajudar, a freguesia do café não se encantou com a escultura. Muitos deviam ter visto o original em Florença. E depois de um bom vinho, o que mais se ouvia eram piadinhas sobre o sexo modelo anjo barroco da peça. "As moças olhavam as veias em mármore e depois riam do resto. Nos Estados Unidos, calculo que tiram 12 mil fotos por dia com a réplica, mas aqui...", protesta Carlo, que diz ter investido US$ 1 milhão em Curitiba, "um prejuízo".

O Café Maria fechou em 2005. Virou La Capresi Ristorante, já fechado e cuja placa jaz aos pés de "David". O terreno foi vendido, a casa está em reformas: por ironia, vai ser uma loja de mármores.

Vale lembrar que "David" teve repercussão sim, na internet, onde passou a fazer parte das bizarrices municipais. Não raro, era citado ao lado da "Estátua da Liberdade" da Ha­­van, do "Cavalo-Babão" e da "Du­­­­­­­­pla Pracinha do Batel". "Uma injustiça", diz o proprietário, dada a qualidade de seu suvenir.

A propósito, Carlo tem leões de fibra de vidro, algumas Vênus e um relevo da "Criação do Mundo", também de Michelângelo. Deve fazer um saldo de liquidação antes de partir. "Essas peças devo vender por R$ 2 mil cada". Vai ser fácil. Res­­tará o "David". "Quem sabe uma boate gay não se interessa", sugere uma amiga curitibana do empresário, agoniada com o encalhe. Nunca se sabe.

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