
Vontade de passar o dia inteiro em um quarto escuro, desprovido de qualquer ruído, sem se mexer e sem fazer qualquer esforço mental. É isso que sente a maioria das pessoas que sofrem de enxaqueca. Estima-se que, em todo o mundo, o problema afete 18% das mulheres e 6% dos homens. Entre os brasileiros, 30 milhões sofrem do mal.
Entretanto, nem toda toda enxaqueca é igual. Estima-se que haja 19 tipos distintos, incluindo a relacionada à alimentação, que afeta 27% dos pacientes. De acordo com a neurologista da Sociedade Brasileira de Cefaléia, Carla Javoux, embora os alimentos não possam ser considerados a causa do problema, eles atuam como fator desencadeante da dor. Hoje em dia já se sabe que existem alimentos, como as gorduras e alguns temperos, que atuam no cérebro desequilibrando alguns neutrotransmissores. As vítimas de enxaqueca, em geral, apresentam uma disfunção provocada pela carência de substâncias químicas que atuam na comunicação entre as células nervosas. Uma delas é a serotonina, que age em áreas do cérebro responsável por modular e absorver a sensação de dor. Por outro lado, sabe-se que há alimentos que ajudam a prevenir crises; é o caso dos que contêm vitamina B2, como cereais em grãos, leite e ovos.
De acordo com o médico Alexandre Feldman, membro da Sociedade Americana de Cefaléia e autor de dois livros sobre enxaqueca, a quantidade de alimentos que podem desencadear a enxaqueca é imensa. "Varia muito de pessoa para pessoa", afirma. Entretanto, existem alguns mais comumente associados ao problema, como o chocolate, queijos, frutas cítricas, gorduras e bebidas que contêm cafeína (como café, chás e refrigerantes). Em contrapartida, a abstinência de determinado alimento também pode ter efeito semelhante. "Pacientes que fazem uso de grandes concentrações de café e interrompem subitamente o uso podem ter cefaléia. Isso é comum em pacientes que consomem café no trabalho e no fim de semana desenvolvem enxaqueca pela falta do componente", explica o neurologista Élcio Piovesan, especialista no assunto. Da mesma forma, o jejum prolongado tem ação semelhante.
Segundo Piovesan, apenas 25% dos pacientes conseguem identificar o agente desencadeante da dor. Em geral, as dores de cabeça induzidas por um componente ou aditivo alimentar aparecem dentro de 12 horas após a ingestão e podem durar até 72 horas. A dor costuma ser bilateral, pulsátil e agravada por exercícios físicos, luminosidade, ruídos e movimentos bruscos da cabeça.
A dona de casa Aparecida Ribeiro, 35 anos, teve de abandonar o emprego por conta das crises. Ela conta que o problema começou ainda na infância, quando ela tinha por volta de 6 anos, e foi se agravando. "Chegou a um ponto em que eu tomava de 10 a 12 comprimidos de analgésicos por dia", lembra. Aparecida conta que chegou a passar duas semanas sentindo fortes dores. "Não conseguia fazer nada, só queria ficar deitada no escuro", conta. Com o tempo, a dona de casa foi conseguindo identificar o que lhe fazia mal. Na lista negra gastronômica estão chocolate, goiaba, shoyu e extrato de tomate. "Chá eu não tomo mais, o café eu ainda tomo, mas com leite", conta.
O chocolate também se tornou inimigo do cirurgião vascular Maurício Abrão. Há mais de dez anos sofrendo com crises de enxaqueca, hoje ele evita ao máximo cair na tentação. "Hoje já conheço bem os sintomas e quando percebo que a dor está começando já tomo a medicação para evitar que vá adiante", conta. Segundo Piovesan, aproximadamente 30% dos pacientes com enxaqueca podem apresentar os chamados sintomas premonitórios, sinais que antecedem as crises. "Eles podem aparecer horas antes do início da crise ou até um dia antes. Podem se apresentar como irritabilidade, sonolência, alteração do humor e até aumento do apetite", afirma.



