
Não consta em nenhum livro de Geografia ou em documento da prefeitura, mas o maior e mais famoso rio de Curitiba é o "Rio Valetão". Basta fazer o teste para saber. Pergunte a um morador como se chama o córrego na frente de sua casa. Na melhor das hipóteses dirá que tem o mesmo nome da rua por onde passa, algo como Riacho Evaristo da Veiga ou Córrego Waldemar Campos. Mas em geral responderá "Valetão", título sob medida ao mau cheiro, às águas "marrom esgoto" e às relações perigosas que mantém com as pontes que usam para chegar ao portão.
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Faltam dados oficiais sobre o número de curitibanos que precisam de pontes para entrar em casa. Resta procurar pistas. Ano passado, por exemplo, cerca de 400 moradores reivindicaram junto ao Setor de Pontes e Drenagens da Secretaria Municipal de Obras algum tipo de reparo nas passarelas particulares. De acordo com a prefeitura, a maioria das avarias são provocadas por vândalos, que furtam corrimões e ateiam fogo às pontes de madeira.
Raramente o pedido de manutenção parte de moradores novos, em busca de melhorias, pois residências com rio na frente mudam pouco de dono. É difícil vendê-las. Tão difícil quanto é encontrar uma ponte bonita, com jardins em volta e itens de segurança. A relação da população com esse tipo de equipamento costuma ser destituída de afeto. A manutenção cabe aos moradores e não ao poder público, o que boa parte considera injusto. "Puxadinhos" são comuns, para fugir das taxas, aumentando a incidência não contabilizada das pontes que balançam e das que caem.
Por fim, reina a incompreensão com o fato de que rios não podem mais ser canalizados, minando a esperança de ter uma calçada para varrer e não uma travessia para cuidar. Sem falar que o vão do rio aumenta a cada ano. Com a falta de áreas livres para escoar as águas da chuva, os riachuelos de antigamente "recebem cada vez mais carga, tornando-se mais largos", explica o ambientalista Edson Struminski, o Dubois.
"Quando comprei essa casa era uma valetinha. Eu pulava de um lado para outro. Hoje é um valetão", espanta-se o mecânico Alexandre Almeida, 36 anos, ao falar sobre o Córrego Guaíra, "seu vizinho" de porta no bairro Água Verde nome dado, aliás, em homenagem a um dos muitos rios locais que "entraram pelo cano".
Na falta de dados oficiais, a reportagem da Gazeta do Povo fez a contagem das passarelas em algumas ruas da cidade brindadas por rios, canais e afins. A campeã é Rua Waldemar Loureiro Campos, no Boqueirão, com 41 pontes domésticas, a maior parte delas padronizadas uma placa de cimento e asfalto, sem nenhum encanto. A segunda colocada é a Evaristo da Veiga, também no Boqueirão, com 39 pontes ligando a rua às casas. Nos dois logradouros os moradores lamentam não terem a mesma "sorte" dos moradores de vias vizinhas, a Diogo Mugiatti e Antônio de Paula, cujos canais, contra a vontade dos ambientalistas, já foram escondidos pelo calçamento.
Há casos, contudo, em que a travessia deixa de ser um problema do dono da casa para afetar o coletivo. É o caso de ruas como a movimentada Coronel Luiz José dos Santos, no Boqueirão, e a pacata Henry Ford, no Fanny e Lindoia. A Luiz José ostenta 15 pontes, nenhuma capaz de suscitar o desejo de tirar uma foto com a namorada. Quem circula por ali na hora do rush não tem o consolo do cartão postal que o local poderia ser. O mesmo se diga da Henry Ford, por onde corre o um dia indomável Rio Pinheirinho. Na década de 1990, depois de uma enchente, o canal foi revestido por dentro com placas de cimento. Ganhou 11 pontes e poderia ser um jardim linear de dois quilômetros. Poderia. A resposta de alguns moradores a como chamam o rio que passa por ali diz tudo: "Rio Valetão".
As 11 pontes esquecidas do Canal Belém
Basta cruzar a Linha Verde em direção à Avenida Salgado Filho e seguir pela via conhecida como Canal Belém. São ao todo cerca de 7 quilômetros de uma paisagem que poderia ser um selo de Curitiba, prova de sua relevância ambiental. Mas o rio está poluído. A margem direita do canal se mostra quase toda corroída pela erosão. As ciclovias somem um pouco a cada chuva. E as 11 pontes de 40 metros de largura, em média, são candidatas a sucata: nenhuma delas figuraria num fôlder turístico, embora tenham vocação para tanto.
"Eu queria fazer do Belém um rio navegável. E da região um parque de 4 quilômetros. Me chamaram de louco", conta o engenheiro civil Roberto Colin, 52 anos, do Setor de Pontes e Drenagens da Secretaria Municipal de Obras. Não se trata de um sonho maluco. Colin guarda até hoje os minuciosos estudos de viabilidade técnica do parque. E sustenta que toda e qualquer região da cidade onde haja córregos e ribeirões deveria ter estrutura semelhante ao Barigui, levando a população a se reconciliar com os rios.
A seu favor, além dos inúmeros exemplos mundiais, tem três projetos de sua autoria. A ponte principal do Parque Barigui, que dispensa apresentações. A ponte sobre o Rio Cascatinha, à moda europeia, marco do bairro Vista Alegre. E a ponte sobre o Belém na Vila das Torres hoje grafitada com a palavra "paz", tornada principal espaço simbólico da comunidade. "As pessoas acham que o rio é problema. Discordo, o rio é a solução. Tem de trazer a população para junto do rio", proclama Colin, com trocadilho, sobre a relação de amor e ódio com os canais urbanos.
O casal Osvaldo, 65, e Raquel Lima, 59, sabe do que se trata. Há 15 anos os dois vivem próximo da penúltima das 11 pontes do Canal Belém, do lado do Boqueirão. Já plantaram bananeiras nas barrancas, para conter os desabamentos. Mas o maior desafio foi impedir que as pessoas jogassem lixo no rio. Conseguiram plantando um jardim de flores e plantas medicinais bem perto da passarela. "Tem cânfora, marcelinha, babosa, figatil", enumera Raquel. A vizinhança vem atrás, e respeita. "Só quem não respeita são os meninos, que arrancam minhas flores para dar à namorada", diverte-se a ribeirinha. Ela é do tipo que cata papel do chão. É o preço de fazer um espaço de civilidade dos pouco mais de 70 metros quadrados que lhe cabem no entorno do rio.
Em tempo. Ao longo do Canal Belém a reportagem identificou um outro jardim além do criado pelos Lima; um pequeno bosque plantado pelos moradores e, na favela Meia Lua, pedaços de troncos transformados em bancos para mirar o rio. O resto é abandono.



