
O olhar triste e vazio da estudante Juliana Beatriz Cachoeira, de 11 anos, revela a quase invisibilidade dos moradores do Morro Inglês, em Paranaguá, diante do poder público. Para ir até a escola, ela caminha diariamente pelo menos sete quilômetros, enfrentando um caminho cheio de obstáculos, lama, poças dágua e dejetos de vacas e cavalos. Quase dois anos depois da enchente que assolou o Litoral do Paraná, a comunidade ainda está à revelia da própria sorte.
O trajeto tem de ser feito a pé porque, desde aquela época, os ônibus escolares não conseguem acessar o local as pontes destruídas na tragédia foram construídas de forma improvisada, com troncos e postes. A parte mais difícil do percurso fica a cerca de um quilômetro da escola. As constantes enchentes mudaram o curso do Rio Cachoeira para o meio da rua. Dessa forma, todos os dias, Juliana precisa caminhar pelo menos 300 metros com a água batendo no joelho, algumas vezes na cintura. "Vou para escola porque não quero levar falta, sei que é importante para mim, mas quando chove forte, tenho muito medo de passar o rio", conta a garota.
Com Juliana, vários estudantes, para conseguir chegar à escola com os calçados limpos, fazem o trajeto com os pés descalços. A situação ainda é mais difícil para os jovens que estudam a noite, pois a região não tem boa iluminação.
Indignação
A situação tem indignado os moradores do Morro Inglês. "Não agüentamos mais. Somos seres humanos à margem da sociedade. Nossas crianças estão sofrendo muito", disse Rosangela Alves, mãe de um dos alunos.
A professora Mariel Andrioli disse que a situação é muito preocupante e não sabe mais o que fazer. "É muito triste. As crianças chegam na escola com os pés sujos, cheios de lama, com feridas. Fazemos o que dá, preparamos roupas reserva, mas a situação está cada vez pior", diz.
A região tem muitos insetos, e as crianças também sofrem com picadas de mosquitos. Algumas delas estão com os pés e as pernas cheias de feridas. De acordo com médico infectologista pediátrico do Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Tony Tahan, as crianças estão expostas a dezenas de doenças como verminoses e lectospirose. "De um jeito ou de outro estas crianças vão ficar doentes, não há como evitar. As doenças, aliadas à situação insalubre do local, fazem com que elas estejam em situação de alto risco," disse o médico.



