
Principal estopim de protestos e manifestações ao redor do mundo, como o movimento Ocupe Wall Street, o crescimento da disparidade de renda nos países ricos leva hoje a uma inversão de papéis envolvendo o "primo pobre" da América do Sul: enquanto aqui no Brasil a desigualdade diminui em ritmo constante, lá fora ela só aumenta.
Cenário que é traduzido em faixas e cartazes improvisados por ativistas com a frase "nós somos os 99%". A maioria, seja em Nova York, Londres ou Milão, trabalharia, segundo os organizadores dos protestos, para enriquecer apenas o 1% restante.
A oscilação na diferença de renda entre as pessoas é um fator que mexe diretamente com o sentimento de justiça de uma sociedade. A desigualdade crescente abala a crença de que a colaboração leva a uma condição melhor de vida para todos. Desde 1980, essa tendência de ampliação da desigualdade faz parte da realidade de 20 dos 34 países que compõem a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne as nações mais desenvolvidas do mundo. Entre esses países estão Estados Unidos, Reino Unido e Itália, onde recentemente explodiram extremismos de esquerda e direita e episódios de violência.
Na contramão dessa tendência, desde 1960, quando se começou a medir cientificamente o tamanho da desigualdade no Brasil, a distância entre pobres e ricos no país nunca foi tão pequena. De 95 a 2009, a porcentagem de pobres em relação ao total da população caiu 46,5%. Mesmo com os avanços, porém, o índice de Gini (medida da desigualdade, que varia de 0 a 1, sendo 1 a maior desigualdade) no Brasil continua alto em 2010, ele foi de 0,53, enquanto a média nos países da OCDE é de 0,31.
Para o coordenador do Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Sociais (Laeser) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Marcelo Paixão, os países ricos estão passando hoje por um processo de "brasileirização".
Na prática, o avanço da desigualdade no exterior acarreta problemas sociais que sempre fizeram parte do dia a dia do brasileiro. "O pior inimigo de um regime democrático é a desigualdade social", reforça o sociólogo da UFRJ. "Como os padrões de vida são muito diferentes, é impossível encontrar boas soluções para todos", avalia.
Efeitos
A redução da desigualdade, segundo alguns estudiosos da área, é um ingrediente fundamental para criar uma sociedade mais feliz, saudável e bem-sucedida, independentemente da classe social. Os pesquisadores britânicos Richard Wilkinson e Kate Pickett, autores do livro The Spirit Level: Why Equality is Better For Everyone (sem lançamento no Brasil), pesquisaram o tema por 30 anos e garantem que a diminuição da desigualdade de renda pela metade em um país reduziria em 80% as taxas de prisões e de adolescentes gestantes e em 50% os números de homicídios e obesidade.
O Brasil ainda está longe de comprovar na prática o que os dois pesquisadores defendem na teoria, mas o avanço registrado nas últimas décadas é capaz de criar o sentimento de que o rumo está correto. Para a socióloga e coordenadora do Instituto de Administração para o Terceiro Setor Luiz Carlos Merege (IATS), Márcia Moussallem, a sensação de maior igualdade social reforça os laços entre os chamados "99%" como diriam os ativistas do Ocupe Wall Street e garante que a busca pela melhoria e sustentação da qualidade de vida seja uma bandeira em comum.
"A mobilização da sociedade civil aponta para um novo momento histórico. Começamos a despertar", profetiza.



