
Sábado, 2h07 da madrugada. Uma equipe do Serviço Integrado de Atendimento ao Trauma em Emergência (Siate) sai para uma ocorrência no Jardim São Gabriel, em Colombo, região metropolitana de Curitiba (RMC), distante apenas sete quadras do quartel. Trata-se de um caso de vida ou morte (código 3), último estágio antes do óbito. O auxiliar de serviços gerais Clémerson Andrade, 27 anos, acaba de ser atacado com uma barra de ferro. Os socorristas prestam o primeiro atendimento e o colocam na maca. A partir daí, começa uma peregrinação de três horas em busca de uma vaga de UTI. A situação do paciente é grave. O corte na cabeça tem cerca de 15 centímetros, ele perde sangue rapidamente e parte do cérebro está exposta. "Quando vi o meu marido daquele jeito, achei que estivesse morto", conta a esposa de Andrade, Michele Moura, 19 anos.
Em Colombo, não há pronto-socorro. O paciente tem de ser levado a Curitiba. A primeira tentativa é o Hospital Cajuru. Andrade chega a ser retirado da ambulância do Siate e recebe os primeiros atendimentos. É entubado e feito o acesso para o soro. Mas os socorristas e Michele são avisados de que o hospital não poderá ficar com o rapaz. "Havia vaga para o centro cirúrgico, mas faltava vaga de UTI. Foi o que nos disseram, pelo menos", conta o socorrista Márcio Rogério Ruzenente, que participou do atendimento.
Avisados pela central de que não havia condições de atendimento no Hospital Evangélico, a ambulância seguiu para o Hospital do Trabalhador. Lá, o paciente nem sequer foi retirado. A informação dada aos socorristas é que faltava um respirador para o atendimento. Sem saber mais para onde ir, Andrade é encaminhado ao Hospital São José, em São José dos Pinhais, na RMC. Não adiantou. "O médico estava dormindo. Disse que não podia atender porque também não tinha respirador. Poucos minutos depois, chegou um carro trazendo um respirador, mas o médico disse que aquele não era para o meu marido", lembra Michele.
A equipe fica parada em frente do Hospital São José, esperando que a central dê alguma solução para o caso. Enfim, são avisados de que uma vaga foi liberada no Hospital São Vicente, no centro de Curitiba. Por volta de cinco horas, finalmente, Andrade consegue atendimento hospitalar. Por pouco não foi tarde demais.
De acordo com o diretor do Sistema de Urgência e Emergência de Curitiba e região, Matheus Chomatas, o caso foi atípico. "Neste ano, não havíamos registrado nenhum caso assim. Mas por causa do feriado e do fim de semana, tivemos muitos atendimentos", explica.
De acordo com Chomatas, quando o Siate atende uma ocorrência, um contato é feito via rádio ou telefone celular com a central para que seja indicado o local para onde deve ser encaminhado o paciente. "Quando o hospital avisa que está sem condições de atendimento, não enviamos paciente. Quando não nos informa, nós entendemos que tem condições", explica. O problema, segundo ele, é que a variação desse status pode ser dinâmica. "Às vezes, no caminho, o hospital está com vaga. Quando você chega, não tem mais", diz.
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