
Nem sempre ter o filho dentro de casa é sinônimo de segurança quando ele tem a oportunidade de abrir a porta do mundo virtual. Pesquisa recente do Comitê Gestor da Internet (CGI), que coordena e integra todas as iniciativas desse serviço, mostra que 65% das crianças de 10 a 15 anos e 24% das de 5 a 9 anos usam a internet no Brasil. Para 40% delas, essa é uma atividade realizada sem o acompanhamento de adultos. On-line, as crianças fazem buscas, conversam, encontram colegas e começam amizades. Ações banais, não fosse a abundância de conteúdo inadequado e de pessoas mal-intencionadas navegando ao mesmo tempo.
Aprenda a defender-se dos crimes virtuais
Os indicadores da SaferNet Brasil, entidade que é referência nacional para enfrentar crimes e violações aos direitos humanos na internet, mostram aumento de 66% nas denúncias apresentadas, puxadas especialmente pelo uso da rede social Orkut. A rede mundial é o canal de crimes que gera mais dinheiro do que o tráfico de drogas, segundo a Polícia Federal. "Ainda não se percebeu a dimensão do problema", afirma o delegado do Núcleo de Combate aos Cibercrimes (Nuciber), Demétrius Gonzaga de Oliveira. "Sabe-se que o crime organizado faz levantamentos constantes sobre adolescentes pela internet para sequestros", conta.
Orientação
Embora não seja fenômeno recente, a internet continua desafiando os pais. Muitos deles ainda não notaram, mas os filhos forjam duas personalidades: a real, percebida na interação com família e escola, e a virtual, por meio de bate-papos e redes sociais. Tradicionalmente, as identidades são clones uma da outra. Mas há exceções. "É importante que os pais conheçam o filho como um todo", diz a pedagoga com especialização em tecnologias educacionais Danielle Lourenço.
O principal mecanismo para orientar filhos não está disponível para download, nem pode ser adquirido via compras coletivas: trata-se do diálogo. "Nenhuma tecnologia vai proteger tanto seu filho quanto uma conversa", opina Thiago Tavares Nunes de Oliveira, presidente da SaferNet. O Brasil é o local em que as crianças passam mais tempo on-line: 18 horas semanais, contra a média de 11,4 horas no resto do mundo.
Baseada na confiança, a professora Michelle Schiestl orienta os filhos Milena, de 12 anos, e Gabriel, de 5. "O Gabriel ainda está na fase de joguinhos. Por isso, selecionamos alguns jogos e deixamos ele se divertir", conta. Por outro lado, a filha mais velha está presente nas redes sociais. "Tentamos mostrar os dois lados da internet. A forma como eles vão agir depende do que transmitimos aos filhos. Acompanhamos quem ela adiciona no Orkut e, de vez em quando, uso a senha dela para bisbilhotar", diz.
Conflito de gerações
Na hora de acompanhar os filhos, muitos pais esbarram na dificuldade para lidar com a tecnologia. "A permissividade dos pais com as tecnologias não é nova. Na década de 1970, aconteceu com a tevê e, em 1980, com o videogame. A internet é mais perigosa e requer orientação", diz Danielle. O gerente de vendas da Symantec para o mercado, Otto Stoeterau, considera que a rede mundial pode ser um conhecimento conjunto para pais e filhos. "Sabemos viver no mundo físico há muito tempo, mas no meio virtual ainda estamos aprendendo. O Brasil tem usuários recentes, é um aprendizado", analisa.
Nesse processo, é preciso ter em mente que a internet jamais vai esquecer as atitudes cometidas. "Ela [a internet] não perdoa", afirma Nunes, da SaferNet. Esse tipo de informação, por vezes, é desconhecida dos pais. "Damos palestras em escolas e temos grande receptividade de crianças e jovens. Já os pais não se interessam pelo tema", diz Oliveira, do Nuciber. Para o delegado, a tecnologia pode criar o espaço ideal para o criminoso. "Houve um sujeito que convenceu uma criança a sair com ele em 40 segundos. Imagine se a mesma passasse horas conversando na internet", compara.
Limitação de conteúdo deve ser avaliada
Há programas de segurança gratuitos e pagos com a possibilidade de bloquear conteúdos e até acompanhar as ações de crianças e adolescentes na internet. Seu uso, contudo, deve ser feito com parcimônia. "Está provado por meio de estudos acadêmicos e não acadêmicos que os filtros de conteúdo não são solução definitiva. Pesquisa da Comissão Europeia mostra que a eficiência dura até aproximadamente os dez anos de vida", afirma Thiago Tavares Nunes de Oliveira, presidente da Safernet Brasil.
Com crianças abaixo dessa faixa etária, a mais inofensiva busca pode desencadear em conteúdo inapropriado. Uma procura por imagens de melancia, no Google, seleciona automaticamente fotos da Mulher-Melancia seminua. "Coisas inocentes que uma criança busca acabam sendo desvirtuadas na internet em razão da exposição acidental", diz Alexandre Rocha Lima e Marcondes, sócio da Kidux, empresa curitibana que desenvolveu programa para controle e acompanhamento de conteúdo.
De acordo com Marcondes, é possível inclusive acompanhar o que os filhos escrevem em programas como o MSN. "Com isso, é possível saber de antemão o que está acontecendo e fazer algo para prevenir em vez de remediar", diz.
Gerente de vendas da Symantec, Otto Stoeterau afirma que, assim como beber ou dirigir, o acesso a determinados conteúdos deve ser bloqueado pelos pais. "Sempre deve haver a explicação sobre os motivos para esse impedimento", diz. Para a pedagoga Danielle Lourenço, o uso desse recurso deve ser motivado por um fator bastante grave. "Para tomar uma atitude como essa, a desconfiança precisa ser justificada. Em casos de pedofilia ou ciberbullying, os adolescentes podem levar muito tempo até se manifestarem", afirma. Atualmente, cerca de mil famílias usam o Kidux.
Para o delegado Demétrius Gonzaga de Oliveira, bloquear conteúdos e acompanhar o que o filho faz não vão surtir efeito sempre. "A tecnologia está amplamente divulgada e acessível. O acesso à internet pode ocorrer em lan houses, computadores públicos e até pelos smartphones. Por isso, o diálogo franco é sempre a melhor solução", diz.
Interatividade
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Vida e Cidadania | 4:24
Desvio de dinheiro de contas bancárias, estelionato e difamação são alguns dos crimes mais frequentes na internet. O delegado Demétrius Gonzada de Oliveira, do Núcleo de Combate aos Cibercrimes (NUCIBER), ensina como proteger-se destes ataques.



