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Tragédia no RS

Para abafar som, boate usou espuma proibida

Dono da Kiss rebaixou teto e instalou material inflamável após abaixo-assinado de 87 vizinhos que protestaram contra o barulho

Polícia faz reconstituição do incêndio na Kiss: fumaça oriunda da queima da espuma foi responsável pela maioria das 235 mortes | Reuters
Polícia faz reconstituição do incêndio na Kiss: fumaça oriunda da queima da espuma foi responsável pela maioria das 235 mortes (Foto: Reuters)

Novos depoimentos e documentos obtidos pela Polícia Civil de Santa Maria (RS) apontam que Elissandro Spohr, o Kiko, um dos donos da boate Kiss, adotou medidas à revelia do poder público e modificou o projeto original da casa, aprovado pela prefeitura em outubro de 2010 e pelos bombeiros em agosto de 2011. Espuma inflamável como isolante acústico, de uso vetado por lei, foi posta no teto por um funcionário em julho, após abaixo-assinado de 87 vizinhos contra o barulho. Morreram 235 pessoas na tragédia ocorrida na madrugada do último domingo.

Em setembro, Spohr cons­­truiu um anexo com mais de 230 metros quadrados, que não consta da planta de 639,7 metros quadrados aprovada em 4 de março de 2010 pela Secretaria de Controle Urbano e Mo­­bilidade. A obra ampliou em 36% o tamanho da casa, que continuou sem saída de emergência.

"A espuma foi colocada por um funcionário da boate na metade do ano [passado]. Antes, no início de 2012, eles tinham feito um isolamento acústico a pedido do Ministério Público (MP) Estadual. Ele não poderia ter usado a espuma inflamável de forma alguma", afirmou o delegado Marcelo Arigony, chefe das investigações. A fumaça tóxica da espuma foi a principal causa das mortes, segundo a Secretaria de Saúde gaúcha.

A espuma pegou fogo após sinalizadores com faíscas serem acesos durante o show da banda Gurizada Fandangueira. A polícia descobriu, pelos depoimentos, que a banda já havia usado sinalizadores em outras apresentações na Kiss. "A colocação da espuma inflamável no sistema de isolamento pode ter rebaixado o teto, que ficava bem próximo dos músicos", disse Arigony.

O advogado de Spohr, Jader Marques, disse que o uso da espuma inflamável foi indicado por uma empresa. "Preciso ter a certeza de tudo para dizer nomes, mas não foi o Kiko que teve a ideia de comprar a espuma, ele teve assessoria técnica." Marques, porém, admitiu que a colocação da espuma não foi comunicada ao MP, com quem fora assinado um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), em julho.

Dolo eventual

A superlotação, o uso da espuma e a área anexa ilegal podem caracterizar dolo eventual. "É a mesma coisa que uma pessoa atravessar no sinal vermelho. Ela não sabe que vai acontecer algo com ela, mas sabe o risco que corre", disse o delegado.

Investigadores descobriram que o segundo sócio, Mário Hoffmann, que está preso, não tem só participação societária, como ele argumentava. "Ele ia sempre à boate e participava do gerenciamento", disse o delegado. A mãe e a irmã de Spohr, que são as donas da boate no registro oficial, podem ser responsabilizadas.

Depoimento

Ex-gerente da Kiss diz que extintores eram retirados por "questão estética"

A polícia ouviu ontem mais 14 testemunhas e fez uma reconstituição do incêndio dentro da boate com a ajuda de cinco sobreviventes. Segundo depoimento prestado por Vanessa Vasconcelos, de 31 anos, ex-gerente da boate, Elissandro Spohr, o Kiko, um dos sócios da casa, mandava retirar os extintores das paredes por questão estética. Ela trabalhou na Kiss de dezembro de 2010 a dezembro de 2012 e sua irmã morreu na tragédia. "Ele achava feio os extintores. Mandava a gente tirar. Só colocava de volta quando ia ter inspeção", disse Vanessa. Os donos da casa noturna, no entanto, afirmam que na noite do acidente a casa tinha todos os equipamentos necessários contra incêndio.

Tentativa de suicídio

A polícia informou ontem que Elissandro Spohr teria tentado se matar no hospital Santa Lúcia de Cruz Alta, onde está internado sob custódia policial. O empresário teria arrancado a mangueira do chuveiro quando foi tomar banho, amarrando-a à janela do banheiro em uma posição que levantou suspeitas dos policiais que estavam de plantão no quarto. A ação foi percebida rapidamente e impedida. Spohr estava na boate na hora do acidente e procurou ajuda médica na cidade de Cruz Alta porque havia inalado muita fumaça.

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