Toda lista de novos cardeais tem os "suspeitos de sempre": bispos que ocupam cargos na administração da Igreja em Roma e arcebispos de dioceses importantes ao redor do mundo. Com a relação divulgada ontem não foi diferente, mas a escolha dos nomes por Bento XVI não deixa de passar alguns recados.
Um deles é a ênfase em bispos que se destacam na defesa da vida. O norte-americano Raymond Burke, quando era arcebispo de St. Louis, foi um dos primeiros bispos a pedir aos padres, em 2004, que negassem a comunhão a políticos que fossem publicamente favoráveis ao direito ao aborto. Curiosamente, outro novo cardeal, Donald Wuerl, bateu de frente com Burke sobre esse assunto Wuerl prefere usar a conversa com políticos pró-aborto que se dizem católicos (não consta que nenhum deles tenha mudado de opinião sobre o assunto). Mas a nomeação de Wuerl é possivelmente motivada pelo fato de ele ser arcebispo de Washington.
Outra escolha de Bento XVI que reflete seu apreço pela luta em defesa da vida é o do arcebispo Elio Sgreccia, presidente emérito (aposentado) da Pontifícia Academia para a Vida. Seu sucessor, Rino Fisichella, teve uma atuação criticada no caso do arcebispo do Recife que excomungou os envolvidos no aborto feito em uma menina de 11 anos. Como resultado, Fisichella não apenas continua sem ser nomeado cardeal, como também foi movido de posto recentemente, e agora está em outro órgão da Cúria. Seu sucessor, o espanhol Ignacio Carrasco, provavelmente ainda precisa passar mais tempo no cargo (foi nomeado em junho) até ganhar o barrete de cardeal.
O Papa que vem incentivando liturgias mais solenes, inclusive encorajando a celebração da missa tridentina (o rito anterior a 1969, quando uma reforma litúrgica criou a missa como a maioria dos católicos a conhece), não deixaria de nomear cardeais ligados a esta outra prioridade papal.
O arcebispo de Colombo (Sri Lanka), Malcolm Ranjith, foi secretário da Congregação para o Culto Divino e tem livros escritos em defesa do decoro litúrgico; Domenico Bartolicci é maestro aposentado de um dos coros do Vaticano; e o já citado Raymond Burke é outro defensor da liturgia tridentina.
Alguns brasileiros estranharam a ausência do arcebispo do Rio de Janeiro, dom Orani Tempesta. Segundo o jornalista Andrea Tornielli, Bento XVI adota uma regra não escrita segundo a qual uma diocese não pode ter dois cardeais eleitores (abaixo de 80 anos) ao mesmo tempo. O Rio tem dois cardeais-arcebispos eméritos: dom Eugênio Sales, de 89 anos; e dom Eusébio Scheid, de 78. Scheid ainda está em idade para votar em um conclave, o que deixa dom Orani longe do barrete de cardeal pelo menos até dezembro do ano que vem.



