
Municípios pequenos do Paraná estão se tornando reduto de uma classe média emergente, formada em parte por famílias que estão deixando a pobreza para melhorar suas condições de vida e ampliar seu potencial de consumo. Um estudo elaborado no ano passado pela Fundação Getulio Vargas (FGV) revela que 15 municípios paranaenses têm mais de 70% de sua população inserida na classe C, acima das camadas mais pobres e abaixo das mais abastadas. Em comum, há o fato de essas cidades apresentarem menos de 50 mil habitantes, estarem localizadas nas Regiões Norte e Oeste do estado e terem reduzido expressivamente o número de famílias pobres ao longo dos últimos dez anos.
Denominado "Os Emergentes dos Emergentes", o estudo da FGV faz uma análise da evolução das classes sociais no Brasil durante a última década. De acordo com o trabalho, desde 2003, 50 milhões de pessoas o equivalente à população da Espanha juntou-se à classe média. Enquanto as classes D e E, que reúnem as famílias com renda domiciliar de até R$ 751, caíram 20% desde 2001, as classes A e B foram incrementadas em 3%. O estrato que mais ganhou reforços, no entanto, foi o da classe C, que cresceu 17% e hoje reúne 105,4 milhões de pessoas, representando 55% da população brasileira.
A FGV considerou como classe C as famílias com renda domiciliar entre R$ 1,2 mil e R$ 5.174. No Paraná, a cidade que reúne o maior porcentual de habitantes nessa faixa é Floraí, no Noroeste. Com uma população de 5,3 mil pessoas, o município tem 73,8% delas enquadradas naquela que pode ser classificada como a classe média. A cidade também detém o segundo menor porcentual de habitantes na classe E (2,81%), perdendo apenas para Entre Rios do Oeste.
Ao mesmo tempo em que assistiram à ascensão da classe média, os municípios que lideram o ranking da FGV viram cair a pobreza. Um levantamento realizado pelo Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes) aponta que todos eles conseguiram reduzir o número de famílias consideradas pobres, aquelas com renda de até meio salário mínimo. Mais do que isso, as cidades se mantêm com porcentuais abaixo das médias estadual (18,4%) e nacional (27,6%).
Vetores
Para o economista Marcelo Côrtes Neri, que coordenou o estudo da FGV, esse fenômeno é resultado do encontro de duas vertentes: o crescimento continuado da economia e a redução da desigualdade. "Em outros momentos da história, nós vimos esses fatos acontecerem, mas de forma isolada. Hoje nós temos uma combinação rara. O bolo está crescendo com mais fermento", ilustra. Mais do que a existência de programas sociais, ele aponta o aumento na criação de empregos formais como o principal vetor desse crescimento.
Professor de Economia da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Joilson Dias afirma que o acesso à educação é um dos fatores preponderantes na expansão da classe média. "Antigamente, só o marido trabalhava. Agora, o homem e a mulher têm seus empregos, aumentando assim a renda familiar. Isso faz com que as pessoas tenham uma rápida ascendência social", avalia.
Classes A e B avançam
Enquanto municípios menores veem a classe média ganhar espaço, na cidade grande quem avança são as classes A e B. Segundo o economista Marcelo Côrtes Neri, que coordenou o estudo da FGV, Curitiba registrou maior crescimento entre as famílias mais abastadas do que na classe C. "A classe C ainda é maioria, mas o aumento na quantidade de habitantes das classes A e B ao longo dos últimos anos nos surpreendeu", afirma.
Segundo o levantamento, Curitiba tem 577 mil moradores nas classes A e B, que correspondem a 33% do total de 1,7 milhão de habitantes. No ranking nacional, a cidade é a 10.ª colocada entre aquelas com mais moradores nas classes com maiores rendimentos. Aqueles que estão inseridos na classe C representam mais da metade da população, 53,2%.
No Paraná, depois de Curitiba, aparecem Maringá e Londrina, que contam, respectivamente, com 24,5% e 21,6% de habitantes nesse segmento. "Hoje a classe C é o Pelé da nossa economia, é quem move o mercado consumidor. Se o país mantiver o ritmo de crescimento, a tendência é que ela passe a ser a nova classe AB", avalia Neri.



