Assim como seria o caso da Serra do Cachimbo (MT), onde ocorreu a colisão do Boeing da Gol (vôo 1907) com o jato Legacy em setembro, há entre o Paraná e o Mato Grosso do Sul um ponto cego para a aviação área onde não há nenhuma comunicação entre a torre de controle e a aeronave. Mais exatamente, a área compreende a região entre as cidades de Londrina, Campo Grande e Ponta Porã (as duas últimas no estado vizinho).
A informação foi divulgada ontem pelo telejornal ParanaTV, da Rede Paranaense de Comunicação (RPC), em entrevista com dois controladores de vôo. Outro controlador de Curitiba entrevistado pela Gazeta do Povo reafirmou a existência do ponto cego. A própria Aeronáutica, que proibiu vôos sobre a região desde que o problema foi detectado no começo de setembro, confirma o problema.
No total, 20 vôos (entre nacionais e internacionais) tiveram as rotas alteradas para não passar pelo ponto cego. "Seria como uma estrada bloqueada para reforma", compara o major-brigadeiro Ramon Borges Cardoso, vice-diretor do Departamento de Controle do Espaço Aéreo.
Cardoso afirma que desde setembro os engenheiros da Aeronáutica tentam encontrar o porquê da falta de comunicação por rádio os aviões nunca voaram por instrumentos na região. "Para não colocar as pessoas em risco, os vôos nessa área só serão liberados quando o problema for identificado e solucionado", ressalta. Para isso, a Aeronáutica tem utilizado um avião-laboratório, que sobrevoa a região fazendo testes de comunicação conforme as modificações no sistema.
Entretanto, um controlador de vôo de Curitiba com experiência de 15 anos afirma que a dificuldade surgiu desde que a freqüência de rádio em Ponta Porã foi modificada. O problema estaria na capacidade da freqüência. "A anterior alcançava um raio de 200 quilômetros, enquanto a atual chega a apenas 15 quilômetros", argumenta.
Como exemplo de transtorno causado pela mudança de rota, o controlador cita os vôos internacionais. Os aviões vindos da Europa com destino ao Paraguai, Argentina e Chile estariam fazendo um desvio de 200 quilômetros, ou seja, um acréscimo médio de 15 minutos na viagem, evitando a região de Ponta Porã e passando obrigatoriamente por Londrina. Como um minuto de vôo de uma aeronave de grande porte gera um consumo de R$ 800 em combustível, o prejuízo por vôo das companhias seria de aproximadamente R$ 12 mil.
Pequeno porte
Já em relação aos aviões de pequeno porte, nenhuma aeronave que voe à altitude de até 14 mil pés (4,5 mil metros) consegue operar por instrumentos ou rádio entre Curitiba, Londrina e Pato Branco. Dentro desse perímetro e abaixo de 14 mil pés, as aeronaves sobrevoam por visibilidade. Ou seja, seguindo as normas internacionais de aviação, o piloto tem permissão para voar sem auxílio da torre desde que as condições do tempo sejam propícias sem chuva ou neblina.
Segundo o major-brigadeiro Cardoso, na maior parte do território brasileiro os aviões de pequeno porte voam nessa condição. Ele afirma que todos os pilotos têm formação para não voar em condições adversas. "Acredito que a ganância dos pilotos não chegue a esse nível, porque se acontecer um acidente, é ele o primeiro a morrer, geralmente", considera.



