A discussão sobre problemas que afetam a sociedade é o primeiro passo para reais transformações. No entanto, as soluções só são possíveis quando há uma interação entre governos, instituições e cidadãos, com o objetivo de criar e desenvolver políticas públicas capazes de satisfazer as necessidades básicas da população. Essa foi a conclusão a que chegou um grupo da Pastoral da Criança, depois de assistir à sessão especial do filme "Anjos do Sol". A transmissão exclusiva do longa-metragem, que retrata a exploração sexual infantil, aconteceu ontem em Curitiba, semanas antes do lançamento nacional, marcado para 18 de agosto.
Escrito e dirigido por Rudi Lagemann, "Anjos do Sol" é resultado de nove anos de pesquisa sobre a prostituição infantil no Brasil. Inspirado em reportagens sobre o tema, o filme narra a história de uma garota de 12 anos, vendida pelo pai para agenciadores sexuais. Confinada em um bordel, no meio da mata, Maria conhece e passa a viver a dura realidade de garotas exploradas sexual e comercialmente. "Gostei do filme. Ele mostra uma dura realidade do Brasil, porém acredito que outras questões, como a violência sexual doméstica, poderiam ser abordadas", diz a coordenadora nacional da Pastoral da Criança, Zilda Arns. "Tudo começa com a discussão. Depois vêm as soluções", comenta.
A idéia é reforçada por outros representantes da Pastoral da Criança que assistiram ao filme e participaram de um debate depois da exibição. De acordo com eles, a realidade mostrada no longa é típica de todos os estados do país. A situação é mais complicada no Nordeste, por causa da miséria, e nas grandes metrópoles.
Pobreza, excesso de filhos, falta de amor, de educação, de saúde e de religiosidade foram as principais causas apontadas pelo grupo como facilitadoras da exploração sexual infantil. A cultura machista e a omissão das autoridades também colaboram para a propagação do crime, acreditam eles.
"Em nossa comunidade (Curitiba) temos gestantes de 13 anos que vendem os filhos. Meninas são violentadas pelo padrasto ou pelo pai. Temos casos em que a própria mãe agencia as filhas", conta uma das participantes do debate. "A realidade da exploração sexual infantil é a mesma em qualquer lugar, o que muda são apenas as roupas e a condição financeira dos exploradores", afirma outro participante.
Apesar de concordarem que o filme mostra apenas o problema e não a solução, todos são unânimes em afirmar que o essencial é o debate sobre o problema. "A discussão traz a prevenção e a ação. A solução vem de nós", diz Zilda Arns.
A solução encontrada pelo grupo começa com a denúncia, passa pela educação e termina na importância da família. "É preciso reforçar os valores culturais da sociedade. Temos que dar condições para uma vida digna, com expectativas e esperanças", acredita Zilda Arns. "Nossas crianças precisam de saúde mental, social e espiritual. Se isso for levado a sério na primeira infância tudo pode dar certo", complementa.



